segunda-feira, 5 de Novembro de 2012 02:32h Gazeta do Oeste

Quatro entre 10 deputados estaduais não elegeram prefeito onde são mais votados

Quarenta por cento dos deputados estaduais que entraram de cabeça nas campanhas de aliados em cidades onde concentram o maior volume de votos perderam a batalha nas urnas para as prefeituras municipais. Cinquenta e sete parlamentares brigaram por seus candidatos em pequenas, médias e grandes cidades onde armazenam a sua principal base. Destes, 22 não tiveram sucesso nestas localidades. Sobretudo nos municípios de pequeno e médio portes, prefeitos e deputados são elos indissociáveis de uma mesma corrente. Os primeiros ajudam a eleger os parlamentares, assegurando bases fiéis com políticas e benfeitorias. Já os deputados auxiliam os prefeitos em seus mandatos, carreando verbas estaduais, federais e resolvendo uma infinidade de problemas burocráticos de interesse das cidades.

Não à toa, os deputados entram de cabeça nas campanhas das cidades onde têm votação expressiva para manter a força de seu grupo político. Frequentemente, deslocam seus parentes das casas legislativas e de outros postos para tentar recuperar as prefeituras. Foi o que ocorreu, por exemplo, em Barbacena, na Região Central, onde, para enfrentar a família Bias Fortes, histórica adversária, os Andrada retiraram o ex-deputado estadual e conselheiro Antônio Carlos Andrada (PSDB) do Tribunal de Contas do Estado (TCE). Toninho Andrada, como é conhecido, foi escalado para enfrentar a prefeita Danuza Bias Fortes (PMDB). Máquina recuperada, ponto para a família Andrada e particularmente para o deputado estadual Lafayette Andrada (PSDB), que irá se beneficiar politicamente, uma vez que em 2010 obteve 11.966 votos na cidade – que representam 15% de sua votação de 78.302 votos, pulverizada em algumas dezenas de localidades.

Segurar as administrações municipais é um caminho tão eficiente para a manutenção das bases eleitorais que cada vez mais as famílias entram no jogo, numa tentativa de manter unidos os elos da corrente. Em Muriaé, por exemplo, onde o deputado Bráulio Braz (PTB) conquistou 14.062 votos – 14% de seus 102.530 votos, distribuídos em centenas de cidades – o seu pai, José Braz (PP), estava na retaguarda como prefeito desde 2004.

O mandato de José Braz se encerrará em 1º de janeiro. Mas o grupo político permanecerá no governo. Venceu as eleições naquela cidade o vice-prefeito de José Braz, Aloysio Aquino (PSDB), que também sustentará politicamente o mandato do deputado federal Renzo Braz (PP), sobrinho de Bráulio Braz. Tanto pior para o deputado estadual Wilson Batista (PSD), que foi derrotado na mesma cidade, onde concentra 30% de seus votos. Ele apoiou, ao lado do deputado federal Lael Varella (DEM), o candidato derrotado Grego (DEM). Ainda mais expressiva do que em Muriaé e em Barbacena, pelo porte da cidade, foi a vitória do presidente da Assembleia Legislativa, Dinis Pinheiro (PSDB) e de seu irmão, o deputado federal Toninho Pinheiro (PP): elegeram o prefeito mais jovem do estado, Pinheirinho, de 21 anos, sobrinho de Dinis e filho de Toninho.

Influência Os deputados derrotados nas urnas das cidades onde têm mais votos não são poucos. O deputado estadual Arlen Santiago (PTB), por exemplo, perdeu em São João da Ponte, cidade do Norte de Minas. Ali, Arlen Santiago tinha o apoio do atual prefeito, Fábio Luiz (PTB), em seu segundo mandato. Minimizando as consequências do resultado sobre o seu futuro desempenho eleitoral na localidade, Arlen Santiago sustenta: “O prefeito com certeza tem influência. Mas nem sempre consegue transferir votos para o deputado, principalmente quando está mal avaliado”. Ele se lembra das eleições de 2010: “Em Januária, o prefeito Maurílio Arruda (PTC), que não se reelegeu, apoiou a deputada estadual Ana Maria Resende (PSDB) e o seu marido, Jairo Ataíde (DEM) para federal. Os dois tiveram cerca de 700 votos a menos do que eu na cidade. O grupo adversário me apoiou lá”, considera Arlen Santiago.

Em Alfenas, os resultados tampouco foram bons para o deputado estadual Pompílio Canavez (PT), ex-prefeito da cidade. Canavez apoiou a reeleição de Luizinho (PT). Ele assumiu a prefeitura em 2010, quando Canavez se elegeu deputado estadual. Também administrando os resultados negativos nas eleições para prefeito na qual concentram mais votos, estão outros tantos, como Ana Maria Resende (PSDB) em Montes Claros, Dr. Glaycon Franco (PRTB) em Conselheiro Lafaiete, Duarte Bechir (PSD) em Campo Belo, Leonardo Moreira (DEM) em Mantena e Rômulo Viegas (PSDB) em São João del Rei. No jogo do ganha e perde, a cada dois anos, a sorte é de novo lançada.

Visibilidade de candidato

Dos quinze deputados estaduais que concorreram às prefeituras de suas principais bases eleitorais, apenas cinco se elegeram. Mas ser derrotado na disputa majoritária não costuma ter consequências para a reeleição ao cargo legislativo. Os parlamentares ganham visibilidade nas campanhas, levam propostas e o seu nome ao eleitorado. Nesse sentido, embora malsucedidos nas urnas para as prefeituras, as campanhas servem como prévias para as suas campanhas à reeleição em 2014.

Em Uberaba, por exemplo, os deputados estaduais Adelmo Carneiro Leão (PT) e Antonio Lerin (PSB) perderam. O primeiro apoiou no segundo turno o candidato vitorioso Paulo Piau (PMDB). Já Lerin chegou ao segundo turno e teve uma expressiva votação. O recall de ambos os favorecerá no próximo pleito. Da mesma forma, Paulo Guedes (PT) em Montes Claros, onde chegou ao segundo turno e arrebanhou 82.478 votos, 43,8% dos válidos.

Também perderam nas campanhas para prefeito Almir Paraca (PT), em Paracatu; Celinho do Sinttrocel (PCdoB) em Coronel Fabriciano; Deiró Marra (PR), em Patrocínio; Durval Ângelo (PT), em Contagem; Luiz Humberto Carneiro (PSDB), em Uberlândia; Neider Moreira (PSD), em Itaúna; e Rosângela Reis (PV), em Ipatinga.

Longe do plenário
Não foi por falta de presença nas bases que boa parte dos deputados estaduais saiu derrotada nas urnas. Reportagem do Estado de Minas na semana passada mostrou que 53 dos 77 parlamentares não compareceram nem à metade das 41 reuniões ordinárias e extraordinárias marcadas no período eleitoral. De 9 de julho a 7 de outubro foram feitas 13 reuniões ordinárias e sete extraordinárias. Outras 20 reuniões previstas para as tardes de terça, quarta e quinta-feira, não puderam ocorrer por haver menos de 26 deputados – quórum mínimo para abrir a sessão – presentes na Casa. Como mostraram as atas de reuniões publicadas no Diário do Legislativo, houve dias em que apenas três ou cinco registros de presença foram apurados. A insatisfação dos deputados estaduais com o resultado das eleições em suas cidades já foi assunto de reunião com o Palácio da Liberdade. Alguns reclamaram que teria faltado apoio. 

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