segunda-feira, 26 de Outubro de 2015 09:22h Atualizado em 26 de Outubro de 2015 às 09:23h. Jotha Lee

Vereadores afirmam que corrupção não é apenas na política

Discursos no plenário da Câmara refletiram o constrangimento causado pela abordagem do tema

Em linhas gerais, nos vários dicionários pesquisados, a definição para a palavra “corrupção” está intrinsecamente ligada ao ato de corromper. “Ato ou efeito de corromper ou de se corromper. Comportamento desonesto, fraudulento ou ilegal que implica a troca de dinheiro, valores ou serviços em proveito próprio (ex.: os suspeitos foram detidos sob alegação de corrupção e desvio de recursos). Degradação moral”.  É dessa forma direta que a maioria dos dicionários define o tema, que hoje representa a maior mancha na vida pública brasileira, tantas são as comprovações de políticos e agentes públicos envolvidos em atos de depravação dos recursos públicos, via de regra desviados para contas particulares, pagamentos de propina ou até mesmo para financiamentos de campanhas eleitorais. O mais comum tem sido a corrupção usada para enriquecimento ilícito, com enormes quantias sendo desviadas para contas particulares.
Assunto quase tabu na Câmara de Vereadores de Divinópolis, a corrupção teve que entrar, obrigatoriamente nos discursos de boa parte dos vereadores na sessão da última quinta-feira. Para tentar justificar a bandalheira na vida pública, especialmente envolvendo a classe política, houve vereador que chegou à absurda afirmação de que todo cidadão é corrupto. Outros ligaram a corrupção até mesmo ao ocupar vaga de estacionamento irregular, numa sinalização clara de que a discussão do tema na sessão do Legislativo causou enorme constrangimento à maioria dos vereadores.
O tema corrupção entrou na pauta dos discursos dos parlamentares em razão da presença do empresário Geraldo Barros, fundador da ONG Instituto Brasil Novo, que tem entre seus principais objetivos o combate sistemático à corrupção. Além disso, a ONG já anunciou que em breve lançará uma campanha pela redução dos salários dos vereadores, mais um ingrediente para deixar a classe em pé de guerra. Geraldo Barros utilizou a Tribuna Livre para apresentar a ONG ao Legislativo e no trecho de seu pronunciamento que causou mais constrangimento aos vereadores, afirmou que todo corrupto precisa ser banido da vida pública: “Queremos coibir todo tipo de prática de corrupção em todos os setores da vida pública. Isso é inadmissível. O corrupto tem que ser banido da vida pública (...) Se nós queremos reverter essa situação,vamos começar a limpeza de baixo para cima. Nós é quem vamos fazer essa limpeza. Eleições vêm aí no ano que vem”.

 

O QUE ELES DISSERAM
O discurso do empresário mexeu com um verdadeiro vespeiro e o constrangimento que tomou conta dos vereadores, ficou evidente nos seus discursos. Leia a seguir trechos de alguns pronunciamentos, nos quais vereadores tentaram banalizar a corrupção, como se fosse uma prática corriqueira e habitual de todos os cidadãos brasileiros.

 

DELANO SANTIAGO (PRTB)
“A palavra corrupção é muito maior do que qualquer ONG pode prever. Brasil novo é que eu quero, é o que o Geraldo [Barros] quer, é o que todo mundo mais quer. Esse Brasil novo tem que ter uma implosão, para começarmos de novo ou sermos colonizados por pessoas melhores (...) O lixo que existia em Portugal, mandaram para o Brasil para ser colonizado, está em qualquer livro de história, que a gente é o restolho do que existia em Portugal (...) Então, essa palavra corrupção é muito maior do que fazermos ONGs, fazermos discursos mirabolosos. Qualquer discurso hoje que vá contra qualquer político é motivo de aplauso (sic)”.

 

ADILSON QUADROS (PSDB)
“A corrupção está em todos os setores. Não é só político que comete corrupção. A prática de ar um jeitinho, de comprar sem nota, isso é corrupção. É preciso mirar os políticos sim, mas porque isso agora está muito em moda. Não estou defendendo político corrupto, tem que mandar para a cadeira sim. Mas, quando nós estacionamos num lugar que não pode, isso também é corrupção. Tem o bom político, o mau político, nós precisamos aprender a discernir as coisas. É muito fácil apontar os defeitos (sic)”.

 

EDMAR RODRIGUES (PSD)
“Realmente nosso país tem que mudar e muito, o povo já não aguenta a tanta corrupção. Corrupção ao vem só através dos políticos, tem através dos próprios empresários também. Porque muitas vezes nossos empresários, a sonegação de imposto, é corrupção. Comprar sem nota, é corrupção. Em pequenas coisas começa a corrupção. Então não é coisa só de político”.

 

RODYSON KRISTINAMURT (PSDB)
“Não é só na política que tem corrupção. Nós tivemos há pouco tempo, um juiz do Rio de Janeiro que tomou os bens do Eike Batista, que estava andando no seu carro, pegou seu piano e levou para dentro da sua sala e outros pertences, de uma forma até criminosa. Isso é corrupção. Em toda instituição tem corrupção. Tem igreja evangélica séria, tem umas que servem de meio de vida. Tem também na igreja católica. Advogados, delegados, vereadores, deputados, governadores, em qualquer situação, tem empresário. Empresário que sonega imposto é corrupção, se ele vende um produto sem nota é corrupção. Se ele deixa de pagar direitos trabalhistas, ele está fazendo corrupção. Se ele compra produtos duvidosos, sem nota, sem procedência, é corrupção. Para ter credibilidade, se é uma ONG apartidária, não pode ter candidato a vereador, a prefeito lá dentro. Para ter o respeito de nós (sic) tem que entender que um grupo de empresário bem intencionado e que comece de dentro da ONG. Enxerguei alguns candidatos sendo da ONG. Então está tirando proveito da ONG para se promover que ele é o paladino da moralidade? Me ajuda. Coerência no discurso (sic)”.
Esclarecimento – Os trechos dos discursos apresentados pela reportagem são apenas algumas pílulas dos muitos absurdos que foram ditos pelos vereadores sobre corrupção. Confundiram ou fizeram questão de se fazer de confundidos sobre o real significado da palavra, para jogar sobre todo brasileiro a responsabilidade por atos putrefatos praticados por agentes públicos. Aqui se fala da corrupção que afana o dinheiro público e não do ato de estacionar em local proibido. Isso é infração de trânsito, cuja legislação prevê multa. Quando se fala em sonegar impostos como ato de corrupção, falta conhecimento para saber que “sonegar” é o ato de “deixar de fazer algo”. Sonegar imposto, é deixar de pagar o imposto e, para isso, a legislação prevê multa.Não se trata de corrupção, mas de um ato de quem acredita na impunidade. Como também a maioria dos corruptos, que acredita que vai salvar a pele diante de uma legislação absolutamente caquética.
Quando se fala que comprar um produto sem nota é corrupção, é a falta de vocabulário para saber o que é contrabando. E, para o contrabando, existe punição prevista no Código Penal. Quando se fala em vender produtos sem nota, o significado é o mesmo da sonegação. Portanto, vereadores que tentaram fazer da corrupção algo banal, corriqueiro, diário, como arma para justificar o lamaçal que se abateu sobre a vida pública nacional, apenas assinaram um atestado de concordância com a roubalheira do dinheiro recolhido pelos impostos que cada cidadão paga para manter o país em funcionamento. Banalizar a corrupção, como foi feito na sessão da Câmara, é extremamente perigoso e fica muito próximo de uma mea culpa.

 

Créditos: Jotha Lee

© 2009-2017. Todos direitos reservados a Gazeta do Oeste. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.