segunda-feira, 3 de Setembro de 2012 10:59h Gazeta do Oeste

Vinte e sete anos depois da redemocratização, promessas políticas se repetem

Melhorar a educação, a saúde, o trânsito, construir moradias populares, ouvir mais a população, recuperar a Lagoa da Pampulha e aumentar a segurança urbana. Soa familiar? É o que propunham para Belo Horizonte os candidatos a prefeito em 1985, os primeiros a concorrer ao voto direto na cidade depois de 23 anos, com a redemocratização do país. Os atuais concorrentes à prefeitura também afirmaram suas posições repetidas vezes sobre esses temas nas últimas semanas, mostrando que, 27 anos depois, os problemas persistem preocupando a população e continuam entre os mais importantes para a cidade – e suas soluções ocupam, da mesma forma, o topo da lista de promessas.

Em 1985, os 983 mil eleitores de Belo Horizonte – hoje o eleitorado soma 1,86 milhão – viviam a emoção de finalmente poder escolher quem comandaria a administração municipal, e se preocupavam com a inflação que assolava seus salários. O pleito foi polarizado por debates presentes também na campanha deste ano.

Se os atuais candidatos debatem com frequência a questão da saúde, também o faziam os então concorrentes Sérgio Ferrara (PMDB) e Maurício Campos (do extinto PFL). À época, por exemplo, Agostinho Patrus, então postulante ao cargo de vice-prefeito na chapa encabeçada por Maurício, disse: “Vamos criar um esquema de atendimento médico municipal de forma que, em cada região, haja um posto de saúde aberto 24 horas por dia, pois a doença não avisa a hora de chegar”. A promessa era instalar 100 postos de saúde na capital, que funcionariam ininterruptamente.

Recentemente, o atual candidato do PT, Patrus Ananias, criticou a administração de Marcio Lacerda (PSB) porque as unidades de pronto atendimento (UPAs) não funcionam aos fins de semana. “Nós sabemos que as pessoas não têm dia nem horário para adoecer”, ele afirmou, quase repetindo as palavras do candidato de 1985.

A expansão da educação vem recebendo muita atenção este ano. Lacerda afirma ter aumentado a capacidade das escolas infantis para receber mais 50 mil crianças nas Escolas Integradas e também ter construído 26 escolas infantis durante seu mandato. Patrus, por sua vez, promete universalizar a educação infantil na cidade, criando vagas para todos. Há 27 anos, Sérgio Ferrara dizia que criaria estrutura para receber todas as crianças de 1ª a 8ª séries – atual ensino fundamental –, “em torno de 500 mil”.

reuniões Outras linhas que balizam os discursos eleitorais são a vontade de aumentar a participação popular e a de humanizar a cidade. Nesta eleição, Patrus e Lacerda protagonizaram um debate acalorado sobre o Orçamento Participativo (OP) – política que faz reuniões com a população para decidir quais obras a prefeitura deve realizar. Patrus afirma ser o criador do mecanismo na cidade e ter dado espaço para a população participar de suas decisões à frente do Executivo municipal. Lacerda defende que ampliou a verba destinada ao OP e que fez centenas de reuniões em toda a cidade.

“Nós vamos ao povo e pediremos que ele venha até nós para dizer o que lhe é prioritário”, dizia Maurício Campos há quase 27 anos. Já Patrus, nos dias de hoje, disse que vai conversar com a população e ouvi-la, e Lacerda afirmou que seu governo é popular porque sabe dialogar com o povo.

Os dois também já polemizaram em torno da questão da humanização de Belo Horizonte: enquanto o candidato do PSB disse que a cidade está cada vez mais humanizada, o do PT apontou como desafio tornar a cidade mais humana e acusou a gestão do adversário de tecnocrática e autoritária. “Vamos humanizar o que podemos chamar de Centro Histórico, para que ele passe a ser o ponto de encontro ao belo-horizontino. O lazer do cotidiano é o único antídoto contra a violência”, já declarava Ferrara em 1985.

mobilidade Sobre as habitações populares, tema muito discutido pelos dois atuais candidatos, elas também eram prioridade para Sérgio Ferrara, que prometia criar a Fundação Habitacional do Município. O trânsito, um desassossego dos belo-horizontinos hoje, também era uma preocupação em 1985. Maurício Campos propunha maior diálogo com os taxistas e defendia que a PBH assumisse sua responsabilidade sobre a gestão do trânsito da cidade, administrado à época por uma autarquia pertencente ao governo do estado. “E os motoristas de táxi? Eles não estão suportando mais o engarrafamento do trânsito em Belo Horizonte, horas a fio presos nesse tráfego caótico na área central da cidade”.

Sérgio Ferrara, que venceu a disputa há 27 anos, acredita que o crescimento de Belo Horizonte representa grande desafio em diversas áreas para o futuro prefeito. Entretanto, ele admite: “Os principais problemas são os mesmos: saúde, educação e segurança”. Já Maurício Campos acredita que há grande semelhança nas propostas do passado e nas de hoje, mas ressalta que o sentimento e as campanhas estão diferentes. Lembrando da eleição de 1985, ele faz um alerta: “Bobo é quem pensa que o povo é bobo. Ele sabe escolher muito bem o que ele quer.” 

© 2009-2017. Todos direitos reservados a Gazeta do Oeste. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.