quinta-feira, 12 de Outubro de 2017 08:30h Juliana Lelis

Abrigo interditado oferecia comida vencida para crianças em Divinópolis

Segundo uma ex-funcionária do local, a situação do serviço era caótica

O abrigo Mãe do Perpétuo Socorro foi interditado na última sexta (6) pela Vigilância Sanitária de Divinópolis. Após denúncias, a equipe da prefeitura foi até o local, onde diversas irregularidades foram encontradas. Em nota, a assessoria de comunicação declarou o espaço fiscalizado como sem condições de abrigar internos no momento. As 15 crianças do abrigo foram encaminhadas para a instituição Servos da Cruz.

Ainda não há informações sobre qual o destino do abrigo, porém, segundo uma ex-funcionária do local, a situação vem sendo caótica há muito tempo e, para ela, o fechamento da sede foi uma libertação para as crianças. A mulher não quis se identificar, mas vivenciou de perto toda a realidade enfrentada pelas crianças do abrigo.

“As crianças nunca chegaram a passar fome, mas as condições de alimentação lá eram chocantes e revoltantes. Várias vezes eu cheguei a chorar com as coisas que aconteciam lá, era uma verdadeira covardia”, afirmou.

CONDIÇÃO DESUMANA

De acordo com a fonte, além da alimentação, os remédios também não eram fornecidos de forma correta. Segundo ela, em alguns casos, chegava-se a dar dose menor para economizar.

“Se o médico indicava uma dosagem de 2,5 ml três vezes por dia, por exemplo, elas tomavam apenas 2 ml, para não ter de comprar um vidro a mais”, contou.

Para ela, a alimentação era o ponto mais assustador. Apesar de o abrigo receber muitas doações, os alimentos ficavam estocados por muito tempo e, mesmo vencidos, eram oferecidos para as crianças.

“Arroz, macarrão e feijão, às vezes por ficarem guardados muito tempo, davam bicho, e aí cozinhava mesmo assim, e na hora de dar para a criança, ia tirando os bichos”, disse.

Ainda de acordo com a fonte, quando voluntários realizavam festinhas para as crianças, as sobras eram guardadas por muito tempo, chegando a perder sem serem oferecidas para os menores.

“Pão, se não tivesse bolor, eles comiam, salgadinhos e refrigerantes de festa ficavam guardados até perder e eles não comiam, então era uma situação de extrema covardia”, completou.

HIGIENE

Segundo a mulher, além dos problemas com alimentação e remédio, a higiene das crianças também era negligenciada. Ela se lembra de vários casos de infecção de urina em meninas ainda em período de fraldas.

“Quando uma criança fazia xixi e cocô, não tinha lenço umedecido e o papel higiênico era regrado, e também não podia dar banho, então, limpava com a fralda mesmo. Dessa forma, as crianças, além de muita infecção de urina, ficavam sempre assadas”, relatou.

Ainda segundo ela, quando pomadas para assaduras eram doadas, a proprietária trocava por outros materiais, por considerar desnecessário.

FISCALIZAÇÃO

De acordo com a fonte, várias denúncias sobre a situação do abrigo já foram feitas, porém, quando a Vigilância chegava ao local, a proprietária mandava algum funcionário dizer que ela estava ausente e apenas ela tinha a chave.

Em nota, a assessoria de comunicação da Prefeitura informou apenas que o espaço fiscalizado não possuía condições para abrigar os internos e as 15 crianças foram encaminhadas para o abrigo Servos da Cruz. Ainda não há informações sobre qual será o futuro do espaço.

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