DELTAN DALAGNOL, OS HACKERS E AS FALSAS SIMETRIAS
Bruno Silva Quirino
A direita radical, composta por reacionários, diferente da direita normal, formada por conservadores, vive pregando falsas paridades e anunciando polos simulados.
Deltan Dalagnol, no tweet que ilustra esta coluna, deu uma dessas. Comentando jocosamente o fato de a primeira-dama Janja Silva ter sido vítima de crime cibernético, ele disse o seguinte:
Agora que um hacker invadiu a conta da Janja aqui no X, estou esperando o @TheInterceptBr dizer que isso é legítimo e divulgar os diálogos da Janja

Assim mesmo, sem ponto final, Dalagnol quis fazer um paralelo entre dois ataques de hackers: aquele sofrido, agora, por Janja e outro, cujas vítimas foram os integrantes de um grupo de Telegram de membros do Ministério Público envolvidos na Operação Lavajato, fato que ficou conhecido como “Vazajato”.
Ora, Bruno, por que o caso é de falso paralelo? Não é tudo a mesma coisa?
Pensar dá trabalho, mas pensemos.
1 – O que os hackers revelaram
Quando Deltan e seus parceiros foram hackeados, descobriram-se uma infinidade de situações que os deixaram de calças nas mãos. Entre as tantas, soube-se que os promotores públicos combinavam ações com o juiz dos processos.
Para um resumo que seja leigo e caiba no espaço desta coluna, explico que o promotor de Justiça é uma parte do processo, é, por modo de dizer, o braço estatal que acusa. A outra parte é o acusado.
E o juiz deve ser imparcial. Não pode ser amigo do promotor nem do acusado.
Mas aquele grupo hackeado, entre outras barbaridades morais e criminosas, fazia o que há de mais errado num processo jurídico: tornava o juiz (Sérgio Moro, no caso), agia como parte do processo. Moro determinava as operações que os promotores deveriam pedir à Polícia Federal, indicava testemunhas e orientava como a turma de Deltan deveria se portar nos processos.
Quanto ao conteúdo de Janja, até o momento nada se sabe. Para se equiparar ao da Vazajato, tem que sair muita coisa brava de lá.
2 – A legalidade das divulgações
Em sua mensagem, Deltan Dalagnol dá a entender que o The Intercept, um dos órgãos de imprensa que divulgou as maracutaias do promotor e sua trupe, foi responsável pelo grampo, ou que o tenha defendido.
Mentira, Deltan. Você sabe que é mentira.
A captura dos seus dados foi um crime, sim. Crime esse cometido por determinado cidadão que, ora, vejam só, posteriormente foi contratada por Carla Zambeli e Jair Bolsonaro para outra mutreta (mas essa é história para outro por-do-sol).
O que a imprensa fez não foi hackear, foi divulgar. E isso, Dr. Deltan, se o senhor estudou Direito a fundo, não é ilegal. Tudo aquilo que a gente ficou sabendo por meio do The Intercept era de total interesse público, afinal mostrava um juiz comandando as ações do Ministério Público.
Já o que venha a ser surgir das redes de Janja, vamos aguardar. Se o conteúdo for de interesse público, a imprensa deve publicar.


















