Brasil

Barriga, bolso e voto: os instintos que decidem a eleição

A política costuma ser explicada por ideologias, discursos e estratégias partidárias. No entanto, o voto nasce, muitas vezes, em um território mais primário e menos sofisticado: o dos instintos humanos. A psicologia ajuda a compreender por que, em períodos de crise ou de bonança, o comportamento do eleitor muda de forma significativa. Antes de ser militante ou ideológico, o eleitor é um indivíduo que precisa sobreviver.

Segundo uma linha clássica da psicologia, o ser humano age movido por quatro instintos básicos. Dois estão ligados à sobrevivência do indivíduo e dois à preservação da espécie. Os primeiros são o instinto combativo e o instinto nutritivo. Os segundos dizem respeito ao impulso sexual e ao impulso paternal ou maternal, associados à continuidade da vida, à solidariedade, ao cuidado e ao afeto.

O instinto combativo é aquele que leva o indivíduo a enfrentar adversidades, competir por espaço e defender-se de ameaças reais ou percebidas. Ele se manifesta quando a inflação corrói salários, o desemprego assombra famílias ou a insegurança domina o cotidiano. Já o instinto nutritivo está relacionado à garantia do alimento, da renda mínima, da moradia e das condições materiais básicas de existência. Sem barriga cheia, não há tranquilidade; sem tranquilidade, não há espaço para abstrações políticas.

É a partir desses dois instintos que se pode compreender o comportamento eleitoral em sua forma mais elementar. O eleitor tende a votar em quem lhe oferece condições de sobrevivência. Daí surge uma equação simples e recorrente nas análises eleitorais: BO + BA + CO + CA — bolso cheio, barriga satisfeita, coração agradecido e cabeça decidindo. Quando a economia vai bem, o bolso alivia, a barriga se aquieta, o coração reconhece e a cabeça decide com menos medo e mais racionalidade.

Os outros dois instintos, ligados à preservação da espécie, ampliam o horizonte do voto. Eles remetem ao futuro dos filhos, à educação, à saúde, à proteção social e à coesão comunitária. São esses impulsos que sustentam valores como solidariedade, empatia, amizade e responsabilidade coletiva. Ainda assim, existe uma hierarquia clara entre os instintos. Quando a sobrevivência imediata está ameaçada, os valores de longo prazo perdem centralidade.

Um eleitor pressionado pelo preço dos alimentos, do aluguel ou do transporte público tende a votar de forma defensiva. A escassez estreita o campo moral e encurta o horizonte político. Somente quando os instintos básicos estão minimamente atendidos é que o cidadão se sente livre para ponderar temas como ética, instituições democráticas e projetos estruturantes de futuro.

É por isso que a economia se impõe como fator decisivo nas eleições. Inflação sob controle, renda previsível, emprego e sensação de prosperidade não são apenas indicadores técnicos. São respostas diretas aos instintos de sobrevivência. Governos que conseguem oferecer esse mínimo material criam um ambiente mais propício a decisões políticas estáveis e menos movidas pelo desespero.

Reduzir o voto à economia não empobrece a política. Ao contrário, reconhece a política como expressão da vida concreta. A democracia não se sustenta apenas em discursos, mas em condições reais de existência. Antes da ideologia vem a barriga; antes da narrativa, o bolso; antes do projeto, a sobrevivência. Quando o bolso alivia e a barriga se satisfaz, o coração agradece, a cabeça decide e a democracia respira.

Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político.

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