O Orelhão…

Sim, somos da época do orelhão e nos deliciávamos com esse aparelho tão importante na nossa vida.
Na minha infância, era chique e caro ter aparelho de telefone em casa. Era um grande investimento da época, como se estivesse comprando um lote em uma área valorizada.
Lembro que lá em casa o número do telefone era 1897, o da casa do tio Amnys 5839, do tio Adib 1886. Para acharmos os números que iríamos ligar, bastava ir ao Catálogo Telefônico e procurar por ordem alfabética. Chique demais.
Era uma peça poderosa dentro de casa ou no comércio e tinha detalhes superinteressantes.
Sempre ao lado do telefone existia uma agenda com todos os números dos conhecidos e de lugares importantes.
As ligações locais tinham que ser rápidas para não prender a linha kkk. E quando a ligação era para outra cidade, meu Deus, era fazer um interurbano kkk, caríssimo. Tinha que ser rápido e sempre ligar de noite, pois o valor era mais barato kkk.
Sempre tinha aquele vizinho que não tinha telefone em casa e pedia o seu emprestado, ou dava o seu telefone para receber recados.
Lembro da primeira vez que vi o fax no escritório em que trabalhava e ficamos de boca aberta ao presenciar o documento enviado pelo telefone materializar no papel ao nosso lado kkk. Mágica.
E quando chegou o celular, enorme, um tijolão em que você podia ligar andando, sem fio kkk. Chique demais.
Mas um dos mais emblemáticos foi o orelhão, telefone de rua que ficava debaixo de uma cabine de fibra acoplada em um poste.
No começo era de fichas, como se fossem moedas de ferro, com tempo determinado para cada ficha. Você colocava a quantidade que fosse usar e tinha um sinal que te avisava quando estava acabando.
O aparelho foi uma inovação e dava filas. O mais engraçado é que todo mundo escutava o que você estava falando e aí que morava o perigo, pois acontecia de tudo: de brigas a romances, de contratos de emprego a avisos de mortes e nascimentos. Ou seja, tudo passava pelo orelhão.
Agora serão desconectados, pois ficaram obsoletos kkk. Uma pena, pois ainda acho charmosos e com serventia, mesmo todo mundo tendo celular. O mais interessante é que um país como o nosso, com um território enorme, ainda possui muitos lugares dependentes desse meio de comunicação.
Mas agora ficamos na saudade daquele que foi responsável por grandes momentos, marcantes do nosso dia a dia.
— Oi, ocê aí, vai demorar demais pra soltá a linha?
— Num é das suas conta. Se quisesse falá mais rápido, devia ter vindo mais cedo. E vou demorá, olha o tanto de ficha que tenho kkk.
— Tomara que sua muié te pega aqui no orelhão, falando com essa sirigaita kkk.
— Joga praga não, inferno kkk.
E assim a coisa acontecia ali, no orelhão, de frente pra rua, aberto para o mundo.
Amnysinho Rachid
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