Perder o chão para ganhar o Céu

Ômar Souki
À medida que nos aprofundamos na espiritualidade, também nos afastamos da materialidade, isto é, vamos perdendo o chão ao passo que nos movemos rumo ao Céu. A Imitação de Cristo nos aconselha que o caminho da paz e da verdadeira liberdade é o seguinte: “Procure, filho, fazer antes a vontade de outrem que a sua. Escolhe sempre antes ter menos do que mais. Busque sempre o último lugar, abaixo de todos. Deseje sempre e peça que em você se cumpra inteiramente a vontade de Deus. Quem assim procede está no caminho da paz e do repouso interior” (Livro 3, Capítulo XXIII).
Essas recomendações são o oposto do que o mundo nos sugere: competição, ser o melhor, chegar primeiro, metas em primeiro lugar e pessoas como degraus. Mas, nosso processo evolutivo tem nos mostrado que, mesmo sendo parte da agitação mundana, podemos escolher agir com mais humanidade e sensibilidade: cooperando, servindo mais, ajudando os outros a chegar, adotando metas ecológicas e colocando as pessoas em primeiro lugar.
O cultivo da sensibilidade, pode nos distanciar da preocupação exagerada com as coisas terrenas, e estimular as seguintes dimensões humanas (unitedwecare.com):
01. Maior predisposição ao silêncio e à contemplação.
02. Criatividade, ampliação da consciência e da imaginação.
03. Intuição: habilidade de “saber” ou “sentir” as coisas sem
necessidade de uma razão lógica.
04. Empatia: sentir as emoções dos outros mais rapidamente e com
mais intensidade.
05. Capacidade de detectar erros e evitá-los, assim como de desfrutar
de foco mais concentrado no trabalho e no lazer.
06. Apreciação aumentada da arte, da beleza e da natureza.
Silêncio e contemplação. A riqueza do silêncio não pode ser superestimada. Estamos rodeados de ruídos e fake news, o que pode nos estressar e mexer com os nossos nervos. Mas, temos um lugar de recursos inexauríveis que é o nosso “quarto interior”. “Quando orar, entre em seu quarto interior. Feche a porta. E ore ao seu Pai em segredo. E, o seu Pai, que está em segredo, vai recompensar você” (Mateus 6, 6).
O “quarto interior” não é um local físico, mas sim, a nossa dimensão espiritual. É onde vamos nos encontrar com Deus. “Fechar a porta” é nos afastarmos dos ruídos internos (conversa interna e pensamentos acelerados) e externos (agitação urbana). “Orar em segredo” é rezar sem pedir ou agradecer, apenas contemplar silenciosamente. É escutar! E a recompensa desse exercício é a Presença do Pai no aqui, agora.
Quando nos aquietamos—“aquiete-se e saiba que eu sou Deus” (Salmo 46)—permitimos que os milagres cheguem até nós. Nos tornamos mais criativos, intuitivos, mais sensíveis às necessidades alheias, aumentamos o nosso foco mental e conseguimos apreciar melhor a beleza que existe na natureza e nas artes.
Ao nos desapegarmos de nossas próprias vontades e nos aprofundarmos na meditação é como se estivéssemos perdendo o chão. Mas, estaremos também penetrando uma dimensão celestial que nos encherá de recursos, que jamais poderiam ser encontrados na agitação mundana.


















