Cântico dos cânticos

Ômar Souki
“Beije-me com os beijos de sua boca! Seus amores são melhores do que o vinho. O odor de seus perfumes é suave, seu nome é como óleo escorrendo, e as donzelas se enamoram de você. Arraste-me consigo, corramos! Leve-me, ó rei aos seus aposentos, e exultemos! Alegremo-nos em você! Mais do que ao vinho, celebremos seus amores! Com razão se enamoram de você! (Cântico dos cânticos 1, 2-4). Uma alegoria do que se passa entre a alma e o Criador, é o próprio amor humano vivido intensamente.
São onze páginas das Sagradas Escrituras dedicadas ao amor. E, por fim, se encerra essa eulogia com os seguintes dizeres: “Eu sou muralha e meus seios são torres. Aos olhos dele, porém, sou a mensageira da paz. […] Fuja logo, meu amado, como veado, um filhote de gazela pelos montes perfumados…” (Cântico dos cânticos 8, 10; 14). Na versão da editora Paulus de 1990 encontrei o seguinte comentário: “O Cântico e o que ele descreve—o amor humano—podem e precisam ser lidos como parábola incomparável que revela a paixão e a ternura de Deus pela humanidade” (p. 827).0
A sinfonia que acalanta nosso coração ao despertar do lado da pessoa amada só pode ser algo que brota do seio do Criador. Da mesma forma, a força que mantem viva a fé e a caridade dos grandes santos se origina da mesma fonte. Viver no amor e para ele é, portanto, a razão e o destino da existência humana. Porém, ao contemplarmos o que se passa agora no mundo, vemos que é justamente o oposto disso. São as nações se preparando para o conflito derradeiro. São ditadores sanguinários com insaciável fome de poder massacrando o povo sedento de liberdade. Como explicar tamanha contradição entre o que as Escrituras determinam e os santos vivem e aquilo que, de fato, está ocorrendo?
São as dores do parto de uma nova humanidade. É o fim de um ciclo de contradições entre o que sabemos que deve ser vivido e aquilo que, de fato, vivemos. Enquanto o amor não penetrar no mais fundo de cada ser vivente, não haverá paz no planeta. E talvez, para que isso aconteça, o Criador não tenha encontrado outra saída senão deixar que os seres se devorem uns aos outros até que não desejem nada mais do que a paz e o amor.
Ao contrário do Cântico, lemos no Apocalipse, o que ocorre quando o amor deixa de ser o nosso único propósito: “Vi quando o Cordeiro abriu o quarto selo. E ouvi o quarto Ser vivo dizer: ‘Venha!’. Vi aparecer um cavalo esverdeado. Seu cavaleiro era a morte. E vinha acompanhado com o mundo dos mortos. Deram para ele poder sobre a quarta parte da Terra, para que matasse pela espada, pela fome, pela peste e pelas feras da Terra” (Apocalipse 6, 7-8).
Simples assim: onde não há amor, não há vida. A nossa mais pura essência é o amor. Enquanto não aprendermos a vive-lo em cada pensamento, cada sentimento, cada palavra e cada ação nossa, não poderemos saborear aquilo que o Cântico dos cânticos nos promete.


















