Minas Gerais

O beijo do leão.

Guiomar Castro

Show do Caetano, no Palácio das Artes. Turnê “Circuladô”. Eu e um casal de amigos vamos ao camarim e a banda nos convida pra jantar com eles, no Xapuri. Sem acreditar, chegamos à Pampulha no fusca do Álvaro (a gente dividia a redação, numa agência de propaganda). Em volta da mesa enorme, Caetano, nós e os músicos. Entre eles, o muso inspirador da canção “Leãozinho”: o baixista e um dos ícones da nossa juventude, Dadi Carvalho. Era um “Novos Baianos” e “A Cor do Som” sentado ali, conversando com a gente, sem nenhuma pose.

Caetano pareceu enciumado pela atenção que o Leãozinho nos dispensava e me perguntou: “Adivinha quantos anos ele tem!” Pra enfrentar um Leão (os dois são desse signo) só mesmo um Escorpião. Na minha intuição rápida, respondi: “40”. E não é que vi Caetano surpreso comigo? Acertei na mosca, apesar da cara de menino do Dadi.

Isso foi há 30 anos. Em agosto, Dadi vai fazer 70 e Caetano 80. Era a turnê comemorativa dos 50 anos do criador da Tropicália. E não foi só aí que o surpreendi. Nessa noite eu estava de preto e, quando nos encontramos de novo, eu estava com um vestido estampado, que lembrava uma capa de LP dos Mutantes ou dos Beatles. Bem psicodélico. Ao me ver, ele perguntou: “Não era você que estava de preto ontem?” Eu: “É pra dar um contraste!”.

Sim! Eles nos convidaram pra assistir ao show de novo, no dia seguinte, nos bastidores. O casal de amigos não foi, mas eu fui. Cheguei pelos fundos do complexo do Palácio das Artes e, pela porta de entrada para o backstage, os músicos me puseram pra dentro. Assisti o show inteiro da mesa de som, na lateral do palco.

Quando Caetano me viu ali, sorriu e acenou com a cabeça, enquanto cantava. Amigos meus, que souberam do convite e que estavam na plateia, me olhavam incrédulos. Mais incrédulos ficaram quando chegaram ao Bagdá Café (restaurante árabe da Savassi, naquela época) e me viram novamente à mesa com “os leões” e sua trupe.

A banda não só me convidou novamente como fui com eles, na van (acho que era Kombi), e ainda fizeram paródia de duas músicas do Caetano com meu nome: “Ô Guiomar ia lá e via, ô Guiomar ia…” (Milagres do Povo). A outra não lembro mais. Caetano foi em outro carro, com sua empresária. Na época, uma irmã da Regina Casé.

Desta vez fui tratada como convidada de honra. Me mandaram pedir o que quisesse. Parecia um sonho ou um filme, onde eu era a protagonista. Não uma fã que corre atrás dos seus ídolos (e realmente não foi isso), mas uma amiga que eles fizeram e que gostaram da companhia. Pedi um uísque pra acordar (ou pra combinar com o clima de embriaguez) e charutos na folha de repolho e de uva (nunca tinha experimentado este segundo).

Quando chegamos, entreguei pro Caetano um acróstico que fiz com seu nome. Foi aí que ele elogiou o vestido colorido. Pra terminar, o Dadi me levou de táxi pra casa e, como um príncipe num cavalo branco, me deu um beijo, que guardo com todo o carinho, no meu coração.

Menino Deus, Menino do Rio, Leãozinho, não sei quantas canções ele inspirou e se inspirou… Mas ele é tudo isso e muito mais. Poesia pura, música instrumental, “magia tropical”. Semente do Amor, Alto Astral, Beleza Pura. E pra terminar, minha favorita:Tudo em nome, em nome da vida. Vontade e alegria, com o tempo perdidas. Tudo em nome dessa verdade. Sonhar todo dia com a felicidade. Vem viver!”                         

Guiomar é jornalista e locutora do Vozes de Minas: www.vozesdeminas.com.br/voz/guiomarcastro  

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