Um coração manso e humilde

Ômar Souki
“Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mateus 11, 29-30). Jesus nos convida a ser mansos e humildes de coração. E, em outra passagem, ele garante que os mansos possuirão a Terra (Mateus 5, 5). Quando criança tive dois exemplos de pessoas assim, minha mãe Salma, e o meu tio Munir. Já o meu pai Acácio tinha o estopim curto. Se irritava com mais facilidade. Comerciante arrojado e visionário, teve enorme sucesso nos negócios, mas chegava em casa com os nervos à flor da pele. Eu achava, então, que para ser bem-sucedido a gente não poderia ser igual à minha mãe ou ao meu tio, mas sim parecido com meu pai. Pensava: “se eu for calmo e sossegado os outros vão tirar vantagem de mim”.
Cresci com o dilema: “devo ser calmo e sossegado como minha mãe e meu tio, ou astuto e atirado como meu pai?”. Hoje eu percebo que o meu próprio pai—através do contraexemplo e dos conselhos—me direcionou mais para o campo da mansidão e da dedicação aos estudos. Foi como se ele tivesse me mostrado o seguinte: “Se você se dedicar às tarefas acadêmicas com afinco, não terá de enfrentar as batalhas do mundo dos negócios”. Decidi, então, mergulhar nos livros e crescer no ambiente universitário. Isso não quer dizer que essa área esteja isenta de competição, porém é uma luta mais reservada ao campo das ideias. Com o passar do tempo aprendi que, não importa onde estejamos, um coração manso e humilde irá sempre nos beneficiar. Estaremos mais predispostos a escutar e a perceber o ponto de vista dos outros navegando com mais tranquilidade pelo oceano da vida. Mas essa não é uma percepção generalizada.
“De fato, a mansidão é uma das virtudes cardeais cristãs que aparentemente não fazem o menor sentido em um mundo onde a seleção natural capitaneada pela lei dos mais fortes é que geralmente prevalece. Talvez, por isso, não poucas pessoas consideram a mansidão como uma fraqueza. A lógica é simples: num mundo dominado pelos mais forte—empresários poderosos, ditadores impiedosos, traficantes implacáveis, ricos arrogantes, políticos inescrupulosos, chefes insensíveis etc.—ninguém deseja ser o ‘fracote’ de quem a maioria só quer tirar vantagem. […] Jesus certamente não estava defendendo uma atitude subserviente diante das pessoas ou uma mentalidade derrotista na vida. Ao contrário, ele estava orientando os seus seguidores para que fossem submissos a Deus e colocassem toda a sua força ou capacidade de reação sob o controle exclusivo dele” (Samuel Câmara, boasnovas.tv).
Não podemos ser bobos. O próprio Jesus chegou a nos aconselhar a ser “mansos como as pombas e astutos como as serpentes” (Mateus 10, 16). Em um oceano sujeito a frequentes intempéries, é importante manter-nos atentos ao rumo que o nosso barco está tomando. Com serenidade—e um coração manso e humilde—conseguiremos manter um firme controle do leme de nossa vida até chegarmos ao destino: o Céu!


















