O distanciamento emocional pode salvar o seu negócio

Já perdi as contas de quantas vezes entrei em uma empresa e, logo na primeira conversa, ouvi que estava tudo bem, que existia apenas um ou outro ponto para ajustar. Naquele momento, quase sempre, o empresário enxergava o negócio exatamente como ele havia aprendido a enxergar ao longo dos anos. Pouco tempo depois, quando começamos a conversar com a equipe, observar os processos e entender a rotina, a realidade normalmente se mostra diferente. O que parecia um problema pontual revela, muitas vezes, uma série de situações que foram se acumulando silenciosamente.
Isso não acontece porque o empresário não conhece a própria empresa. Acontece, muitas vezes, justamente porque ele conhece demais.
Quem constrói uma empresa do zero não constrói apenas uma operação. Constrói uma história. Existe ali investimento, risco, noites mal dormidas, decisões difíceis, pessoas que fizeram parte da caminhada, conquistas e também erros que foram necessários para chegar até onde se chegou. Por isso, é natural que exista uma relação emocional muito forte com aquilo que foi construído.
O problema começa quando esse vínculo deixa de ser combustível e passa a funcionar como uma espécie de filtro.
Com o tempo, algumas coisas deixam de ser questionadas simplesmente porque sempre foram feitas daquela maneira. Um processo ineficiente passa a ser considerado normal. Uma pessoa permanece em determinada função porque existe uma relação de confiança. Uma decisão continua sendo tomada da mesma forma porque, em algum momento, funcionou. E aquilo que deveria provocar uma revisão passa a fazer parte da paisagem da empresa.
É aí que o distanciamento emocional se torna importante.
Não estou falando de deixar de se importar com a empresa. Estou falando justamente do contrário: de criar condições para enxergá-la com a racionalidade necessária para continuar fazendo com que ela evolua.
Às vezes, o empresário precisa sair, por alguns instantes, do papel de quem construiu para assumir o papel de quem observa. Olhar para a empresa como se não conhecesse sua história. Perguntar por que determinado processo existe, por que determinada pessoa ocupa aquela posição, por que determinada decisão continua sendo tomada e, principalmente, se aquilo ainda faz sentido para o momento atual do negócio.
É nesse ponto que o olhar externo pode fazer uma diferença enorme.
Um consultor não carrega a história daquela decisão. Não participou das circunstâncias que fizeram determinado processo nascer. Não tem vínculo com pessoas ou estruturas que precisam ser revistas. Por isso, consegue fazer perguntas que muitas vezes deixaram de ser feitas dentro da própria empresa.
E essas perguntas podem incomodar.
Talvez esse seja um dos maiores desafios de qualquer processo de desenvolvimento empresarial: entender que ouvir uma avaliação diferente não diminui a autoridade de quem está à frente do negócio. Pelo contrário. Demonstra maturidade para reconhecer que ninguém consegue enxergar tudo sozinho, principalmente quando está emocionalmente envolvido com aquilo que construiu.
O empresário não precisa concordar com tudo o que um olhar externo apresenta. Precisa estar disposto a ouvir, analisar e decidir. A empresa continua sendo dele. A história continua sendo dele. O protagonismo continua sendo dele.
Mas uma coisa muda quando existe esse distanciamento: as decisões deixam de ser tomadas apenas com base naquilo que se conhece e passam a considerar também aquilo que talvez não estivesse sendo percebido.
No fim, muitas empresas não precisam necessariamente de uma grande transformação. Às vezes, precisam apenas que alguém acenda a luz em lugares que, de tanto fazerem parte da rotina, deixaram de ser observados.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja o que precisa mudar na sua empresa, mas há quanto tempo você não consegue enxergá-la verdadeiramente de fora. Porque, em alguns momentos, para continuar cuidando bem daquilo que construímos, precisamos nos afastar emocionalmente o suficiente para conseguir enxergar o que a proximidade já não nos permite ver.
Leandro Martins é desenvolvedor de empresas, especialista em gestão lucrativa, desenvolvimento de lideranças, equipes e performance organizacional. Atua há mais de 20 anos no mercado empresarial e é diretor na CDL Divinópolis. Fundador e líder do movimento empresarial “Gestão e Oração”.










