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Ansiedade: quando o estado de alerta pode se transformar em perigo para o corpo

A ansiedade é uma resposta fisiológica de defesa do organismo, mas, quando se torna intensa, frequente ou persistente, pode deixar de ser apenas uma reação emocional e passar a produzir importantes repercussões no corpo. Diante de uma situação interpretada como ameaça, o cérebro, especialmente estruturas envolvidas na percepção de perigo, ativa o sistema nervoso autônomo e o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. O resultado é a liberação de catecolaminas, como adrenalina e noradrenalina, além do aumento da atividade do cortisol. O organismo entra em estado de “luta ou fuga”, preparando coração, pulmões e músculos para uma resposta rápida. O problema aparece quando esse mecanismo permanece ativado mesmo sem uma ameaça real.

No sistema cardiovascular, a ansiedade pode provocar aumento da frequência cardíaca, da força de contração do coração e da pressão arterial. A descarga de adrenalina estimula o coração a trabalhar mais intensamente, enquanto ocorre redistribuição do fluxo sanguíneo para estruturas consideradas prioritárias durante o estado de alerta. Palpitações, sensação de coração acelerado, aperto no peito, falta de ar e tremores podem aparecer. Em pessoas com fatores de risco cardiovascular, a exposição repetida a esse estado de hiperativação pode contribuir para um ambiente fisiológico desfavorável, especialmente quando associada a hipertensão, sedentarismo, obesidade, tabagismo, álcool e outros fatores.

É importante compreender, porém, que ansiedade não significa automaticamente infarto ou AVC. Uma crise de ansiedade pode produzir sintomas muito semelhantes aos de algumas emergências cardiovasculares, mas são condições diferentes. Entretanto, a ansiedade crônica pode estar associada a comportamentos e alterações fisiológicas que aumentam o risco cardiovascular, como pressão arterial elevada, alterações do sono, sedentarismo, alimentação inadequada e uso abusivo de álcool ou outras substâncias. Por isso, uma pessoa com dor ou pressão no peito, falta de ar intensa, desmaio, sudorese fria, dor irradiando para braço ou mandíbula ou sintomas neurológicos súbitos deve procurar atendimento de emergência, mesmo que imagine estar tendo apenas uma crise de ansiedade.

No cérebro, a ansiedade modifica a forma como o indivíduo interpreta e responde aos estímulos. A atenção fica excessivamente direcionada para possíveis ameaças, enquanto pensamentos de preocupação e antecipação de acontecimentos negativos podem se tornar repetitivos. A hiperativação fisiológica também pode provocar dificuldade de concentração, irritabilidade, inquietação e alterações do sono. Em alguns casos, instala-se um ciclo: a pessoa percebe uma alteração corporal, interpreta aquele sintoma como perigoso, aumenta o medo, libera mais adrenalina e passa a sentir ainda mais sintomas. A Organização Mundial da Saúde reconhece que transtornos de ansiedade podem provocar sofrimento significativo e interferir na vida social, profissional e familiar.

O sistema respiratório também participa dessa resposta. Durante uma crise, a pessoa pode respirar mais rapidamente ou superficialmente, alterando a relação entre ventilação e necessidade metabólica. A hiperventilação pode reduzir o dióxido de carbono no sangue e provocar tontura, formigamento, sensação de falta de ar e aperto torácico. No sistema musculoesquelético, a ansiedade prolongada pode manter músculos em estado de tensão, favorecendo dores cervicais, cefaleias tensionais, desconforto nos ombros e alterações posturais. O sistema gastrointestinal também pode ser afetado, provocando náuseas, desconforto abdominal e alterações do funcionamento intestinal.

Outro ponto importante é o impacto indireto da ansiedade sobre a saúde. Uma pessoa constantemente ansiosa pode dormir pior, reduzir sua atividade física, aumentar o consumo de álcool, buscar alimentos de maior densidade calórica ou utilizar substâncias como tentativa de aliviar o desconforto emocional. Esses comportamentos podem contribuir para ganho de peso, hipertensão, alterações metabólicas e maior risco cardiovascular. A própria OMS destaca a relação entre ansiedade, hiperatividade do sistema nervoso e fatores físicos que também estão associados às doenças cardiovasculares.

A atividade física surge como uma importante ferramenta de prevenção e controle. Durante o exercício, o organismo também aumenta frequência cardíaca, ventilação e atividade metabólica, porém de maneira fisiologicamente organizada e adaptativa. Com a prática regular, ocorre melhora do condicionamento cardiorrespiratório, da capacidade funcional e da regulação cardiovascular. Além disso, a atividade física está associada à redução de sintomas de ansiedade e depressão e à melhora do sono e do bem-estar. A OMS recomenda, para adultos, pelo menos 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada, ou 75 a 150 minutos de atividade vigorosa, além de exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias da semana.

Nesse contexto, a fisioterapia também pode exercer papel importante, principalmente quando integrada a uma abordagem multiprofissional. O fisioterapeuta pode avaliar capacidade funcional, condicionamento cardiorrespiratório, padrões respiratórios, tensão muscular, mobilidade, equilíbrio e tolerância ao esforço, estruturando um programa individualizado de exercícios aeróbicos, fortalecimento, mobilidade, técnicas respiratórias e estratégias de relaxamento. A OMS considera o exercício físico estruturado uma intervenção que pode ser utilizada em adultos com transtorno de ansiedade generalizada e/ou transtorno de pânico. Portanto, cuidar da ansiedade não significa apenas controlar a mente: significa também compreender o corpo, movimentá-lo, melhorar sua capacidade funcional e interromper o ciclo de hiperalerta.

Por: Ft Ronner Miranda

Especialista em Fisioterapia Neurofuncional

Crefito: 243203-F

Tel: 3799905-3770

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