Minas Gerais

Ordem e espiritualidade

Ômar Souki

Quando criança eu me assentava no escritório de Frei Mariano Gijsen, meu guia espiritual, e ficava observando a ordem de seus livros e das coisas sobre a sua escrivaninha. Também me encantava com a ordem de suas palavras, pronunciadas com suave sotaque holandês. Pensava, então: “Quando eu crescer quero ser assim”. Seis décadas se passaram e até hoje, quando passo defronte da janela daquele escritório—no Convento de Santo Antônio, em Divinópolis, MG—a feliz lembrança salta em minha mente.

Na manhã deste dia, eu meditava sobre o que deveria escrever e me apareceu a palavra “ordem”. Estou lendo o livro A virtude da ordem, escrito por Francisco José de Almeida (Editora Quadrante, 2015), presente de minha amada esposa Rejane Araújo. Uma das coisas que mais admiro nela é justamente a sua capacidade de organizar, não só o nosso lar, mas também as nossas finanças e, principalmente, a nossa espiritualidade. Ela foi postulante em duas congregações religiosas, as beneditinas e as carmelitas. Depois de alguns anos descobriu que sua vocação era outra, mas a ordem permaneceu com ela. O espaço em que habitamos irradia espiritualidade: pelas imagens de santos, pelos vídeos que assistimos (Padre Paulo Ricardo, Canção Nova, Instituto Hesed etc.) e pela organização.

Rejane me ajudou a realizar aquele sonho de infância: ter um escritório parecido com o do Frei Mariano. Sinto que nele a minha criatividade dança à vontade e estimula a minha elevação espiritual. Aqui faço as minhas meditações, escrevo (artigos e livros), preparo minhas palestras e cursos e gravo meus vídeos. Enfim, coloco ordem em minha vida.

Mas o que é “colocar ordem na vida”? No livro A virtude da ordem, o autor explica que nossa vida é como uma mão, cada dedo representando uma área de atividade (p. 14):

Indicador: trabalhos profissionais.

Médio: deveres religiosos.

Anelar: obrigações familiares.

Mindinho: descanso e cultura.

Polegar:responsabilidades sociais.

Para ordenar a vida é importante prestar atenção a esses aspectos representados pelos dedos de nossa mão. Notamos, porém, que nessa escolha, o dedo maior ficou para “deveres religiosos”, pois, segundo o autor, “tudo o que corresponde às verdades que se prendem direta ou indiretamente com a nossa relação com Deus tem de estar em primeiro lugar. Disso depende a finalidade última da ordem, porque ‘de que serve ao homem ganhar o mundo inteiro se vier a perder a sua alma?’ (Mateus 16, 26)” (p. 15).

Há, portanto, forte sinergia entre a espiritualidade e a ordem. À medida em que fui aprofundando a minha espiritualidade—por meio do convívio com Rejane—também fui sentindo maior necessidade de ordem em minha vida. Não só melhorei sensivelmente a minha organização pessoal, como também a profundidade e o zelo com que procuro executar as minhas tarefas, por mais simples que sejam—do lavar uma panela ao preparo de uma palestra.

O reverso também ocorre: ao melhorar o meu sentido de organização, automaticamente motivo o meu aprofundamento espiritual. Hoje, ao adentrar o meu escritório—assim como acontecia com o espaço do Frei Mariano—senti que a minha alma já começava a respirar a Presença do Criador.  

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