Minas Gerais

Aviso de Deus

Ômar Souki

Pela manhã vi no facebook a foto de um toureiro assentado—com a mão direita no rosto e a esquerda no joelho—em atitude reflexiva. O texto sob a figura explica que se trata de Álvaro Múnera no momento em que, depois de contemplar o olhar inocente do touro, decide largar para sempre a abominável profissão de toureiro. Fiquei comovido com a situação apresentada e decidi pesquisar mais sobre o assunto. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que se tratava de fake news. Não só isso, mas vi também que a história verdadeira do toureiro superava, em muito, o que havia sido postado no facebook. A Wikipédia publicou o seguinte sobre Álvaro Múnera:

“Depois de uma tourada na praça de touros de La Macarena, em Medellín, na Colômbia, e de vencer a Feira da Candelária, Múnera […] ele conseguiu um contrato para tourear na Espanha. Chegou em 6 de março de 1984 e lá completou vinte e duas touradas. Entretanto, em 22 de setembro do mesmo ano, […] um touro o fisgou e o levantou, causando-lhe uma fratura da quinta vértebra cervical com lesão medular irreversível acompanhada de traumatismo craniano. Ele ficou paraplégico”.

O relato continua explicando que Múnera ficou hospitalizado por quatro meses em Toledo, na Espanha, e transferido para o Hospital Jackson Memorial, em Miami, nos Estados Unidos, onde permaneceu por mais quatro anos e meio. Durante esse período recuperou o uso das mãos e conseguiu se locomover em uma cadeira de rodas. Foi depois transferido de volta para Medellín, onde continuou a sua recuperação.

Em sua terra, juntamente com outras pessoas com necessidades especiais, Múnera formou uma organização para promover ações em prol dos deficientes. Tornou-se vereador em 1997 e ajudou a aprovar leis de apoio às pessoas com necessidades especiais. Também se ligou a uma organização em defesa dos animais. Tornou-se um crítico das touradas, afirmando que aquela chifrada—que o havia tirado das praças de touros—tinha sido um “aviso de Deus”.

A sabedoria popular afirma que “Deus escreve certo por linhas tortas”. Podemos imaginar a enormidade do sofrimento pelo qual Múnera teve de passar para tomar consciência do absurdo que sua vida de matador representava. Zombava, humilhava, torturava e matava animais indefesos com o único propósito de divertir multidões. Algo inconcebível para um ser que se diz humano.

O relato fake é comovente: “Em um momento esqueci a existência dos chifres. Tudo o que conseguia ver eram os olhos dele, ali parados, não com raiva, mas com algo muito mais profundo: inocência. Ele não estava a atacar-me, estava apenas a olhar para mim, a implorar sem palavras pela sua vida. Foi aí que me veio à cabeça que este não é um animal contra o qual estou a lutar, mas sim algo vivo que queria viver tanto quanto eu”.

De fato, Álvaro Múnera deixou de tourear, mas não foi pela razão explicada na notícia do facebook. Com frequência somos confundidos por explicações mentirosas sobre acontecimentos que realmente ocorreram. Esse caso confirma, mais uma vez que, por mais sensacional que seja a mentira, jamais conseguirá superar a força da verdade.   

Portal G37

Portal de Notícias de Divinópolis e Região Centro-Oeste de Minas Gerais
Botão Voltar ao topo

Bloqueador de Anúncio Detectado

Nosso conteúdo é gratuito e o faturamento do nosso portal é proveniente de anúncios. Desabilite o seu bloqueador de anúncios para ter acesso ao conteúdo do Portal G37.