Minas Gerais

Concessão de águas mineiras é alvo de críticas na Comissão de Administração Pública da Assembleia Legislativa de Minas Gerais

Lideranças das estâncias hidrominerais reclamam que população não foi ouvida sobre possibilidade de exploração privada.

possibilidade de privatização de parques e fontes de água das estâncias hidrominerais foi criticada por lideranças regionais durante a audiência da Comissão de Administração Pública da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) realizada nesta terça-feira (16/8/22).

A Codemge, empresa estatal que administra os direitos minerários de Araxá (Alto Paranaíba) e outras seis cidades do Sul de Minas – Poços de Caldas, Caxambu, Cambuquira, Lambari, Caldas e Conceição do Rio Verde – abriu duas consultas públicas para concessão desses ativos à iniciativa privada.

Porém, vereadores e representantes de entidades da sociedade civil reclamam que as populações desses municípios não foram efetivamente ouvidas. Eles manifestaram o temor de que a exploração privada das águas minerais possa comprometer a sua conservação, ameaçando o turismo nas estâncias hidrominerais.

PRIVATIZAÇÃO DE PARQUES E CONTAMINAÇÃO DAS ÁGUAS ESTÃO ENTRE AS PREOCUPAÇÕES 

Segundo o vereador Daniel Tygel, de Caldas, a população do município não participou da consulta pública sobre a alienação dos direitos das fontes minerais do distrito de Pocinhos do Rio Verde.

Ele disse que um abaixo-assinado contra a privatização obteve a adesão de mais de 2,5 mil habitantes da cidade, mas não foi levado em consideração pelo Governo do Estado. “Recebemos de volta apenas o desprezo pela nossa história”, afirmou o vereador.

A Câmara Municipal de Caldas aprovou uma lei para a constituição de uma empresa pública municipal para concorrer em uma eventual licitação para exploração das águas minerais de Pocinhos do Rio Verde. “Mas qual a capacidade dessa empresa, criada a toque de caixa, sem capital, concorrendo com uma multinacional?”, questionou Daniel Tygel.

A população de Cambuquira também foi surpreendida pela consulta pública para exploração de suas águas minerais, segundo a vice-presidente da OSC Nova Cambuquira, Ana Paula Lemes de Souza. “Estamos vendo a água deixar de ser um bem medicinal para se tornar uma commodity”, criticou.

Ana Paula Lemes denunciou a contaminação das águas por nitratos, o que sugeriria a possibilidade de contato com esgoto e de mistura das águas superficiais com o aquífero profundo, responsável pelas fontes minerais. Ela também denunciou a redução da vazão das fontes de Cambuquira.

Já em Caxambu, o que preocupa é a possibilidade de privatização do Parque das Águas em uma licitação separada das fontes minerais. A vice-presidente da Sociedade Amigos do Parque das Águas (Ampara), Maria Antônia Williams Muniz Barreto Siqueira, defendeu a suspensão da licitação de concessão do parque, que deve ser concluída em outubro.

Em Lambari, o receio é quanto à destinação do Cassino do Lago, construído em 1909. O presidente da Fundação Cultural Vagão 98, Paulo Asterio de Castro Guerra, disse que a Codemge investiu R$ 15 milhões na reforma do prédio, mas ele permanece fechado à visitação.

Paulo Asterio ainda questionou os resultados da sociedade em conta de participação (SCP) para exploração das águas minerais de Lambari. Segundo ele, a Codemge acumula prejuízos com esse empreendimento e o sócio privado (a empresa Maximus) suspendeu a exploração das águas em 2017.

Governo diz que está aberto ao diálogo

O subsecretário de Estado de Promoção de Investimentos e Cadeias Produtivas, Frederico Amaral e Silva, rebateu as críticas e defendeu a exploração das fontes de água mineral pela iniciativa privada. “Nosso objetivo é aumentar o turismo, aliado à preservação desses locais”, afirmou.

Tanto o subsecretário quanto o diretor-presidente da Codemge, Thiago Toscano, reiteraram que as empresas privadas têm melhores condições para administrar as fontes minerais e parques das águas. Os dois também reforçaram que estão dispostos a continuar conversando com lideranças locais para esclarecer dúvidas quanto às concessões.

Segundo Thiago Toscano, a Codemge conversou com todos os prefeitos das estâncias hidrominerais. Ele ainda informou que a exploração das águas minerais é deficitária há pelo menos quatro anos, e o próprio prefeito de Caxambu teria pedido para não administrar o Parque das Águas, que daria prejuízo de R$ 4 milhões por ano.

O diretor-presidente da Codemge esclareceu que a regulamentação da Agência Nacional de Mineração (ANM) veda a exploração de direitos minerários pelos municípios. Por outro lado, esses direitos podem ser cedidos pelo Estado a empresas públicas municipais.

Ele ainda negou que as concessões planejadas pela Codemge têm o objetivo de priorizar o lucro de empresas privadas. “Não é um modelo para ganhar dinheiro, mas para melhorar a prestação de um serviço público”, afirmou.

DEPUTADOS SÃO CONTRA PRIVATIZAÇÃO

Os deputados manifestaram preocupação com a exploração das águas minerais pela iniciativa privada. Para a deputada Ana Paula Siqueira (Rede), trata-se de um “perigo que se avizinha”. “A política privatista deste governo é entreguista, pois não considera nenhum aspecto, a não ser os interesses das empresas”, afirmou.

O deputado Professor Cleiton (PV) se colocou totalmente contra a privatização. “Estamos falando de um patrimônio natural. Privatizar a água, não”, defendeu.

Já o deputado Betão (PT) disse que é preciso observar atentamente as entrelinhas dos contratos de concessão, que podem conter cláusulas de subsídios estatais ou aumento de preços de ingressos para os parques, para garantir o lucro das empresas vencedoras das licitações.

A deputada Beatriz Cerqueira (PT), que solicitou a realização da audiência pública, anunciou que a comissão vai cobrar providências e informações de diversos órgãos.

A parlamentar pretende pedir ao Ministério Público a investigação de possíveis irregularidades no processo de concessões para exploração das águas minerais. À Codemge, ela vai solicitar a suspensão da licitação do Parque das Águas de Caxambu.

Beatriz Cerqueira ainda informou que vai protocolar um projeto de lei para declarar como patrimônio imaterial de Minas Gerais o uso das águas das estâncias hidrominerais.

Fonte: Assembleia Legislativa de Minas Gerais

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