Minas Gerais

Nossa natureza transcendental

Ômar Souki

Viktor Frankl, psiquiatra austríaco, examina a trajetória humana segundo dois eixos: um horizontal e o outro vertical. No eixo horizontal que vai do fracasso ao sucesso, transita o homo sapiens; e no vertical, que vai do desespero à realização, se move o que ele chamou de homo patiens. Ele chama atenção para esse detalhe, pois, em geral, focamos apenas no eixo horizontal e nos esquecemos do vertical, isto é, da nossa natureza transcendental. Para ilustrar a existência dessa dimensão ele cita uma carta que recebeu de um prisioneiro de Baltimore, nos Estados Unidos.

Era um homem de 54 anos, financeiramente arruinado, cumprindo pena de prisão, que relatou ter vivido uma profunda mudança, sem aparente razão. Uma noite, no silêncio de sua cela, fez as pazes com o mundo e com ele mesmo. Encontrou o verdadeiro sentido de sua vida e passou a acreditar em sua realização. De repente, começou a achar a vida maravilhosa e esperar ansiosamente por cada amanhecer.

Frankl também comenta os resultados de uma pesquisa que foi feita com graduados da Universidade de Harvard, que seguiram carreiras brilhantes: advogados, juízes, industriais, cirurgiões, psicanalistas. Dentre eles, um grande percentual, vinte anos depois de formados, se diziam desesperados. Estavam passando por uma crise de sentido. Apesar de todo o sucesso, confessaram estar desesperados. O psiquiatra comenta, então que, “da mesma forma que o sucesso pode fazer-se acompanhar de desespero, a realização pode andar de mãos dadas com o fracasso” (Sede de sentido, p. 36).

Essa representação gráfica nos ajuda a entender, não só a força do sentido, mas também as duas dimensões básicas de nossa existência: a material e a espiritual. As Escrituras nos mostram que, mesmo no cárcere, os cristãos encontravam energia para orar e cantar. “E, perto da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam hinos a Deus, e os outros presos os escutavam. E de repente sobreveio um tão grande terremoto, que os alicerces do cárcere se moveram, e logo se abriram todas as portas, e foram soltas as prisões de todos” (Atos 16, 25-27). Essa força que movia os primeiros cristãos é a entrega a um propósito superior: a missão de divulgar o Evangelho.

Embora as portas da prisão não tenham sido abertas para o prisioneiro de Baltimore, o fato dele ter encontrado um sentido para a sua vida, foi o que lhe deu a liberdade, não material, mas espiritual.

A nossa natureza espiritual nos permite desfrutar da liberdade, não importa qual seja a nossa condição. O próprio Viktor Frankl conseguiu suportar três anos em campos de concentração durante a II Guerra Mundial devido ao sentido que havia encontrado para a sua vida: a crença em Deus, a esperança do reencontro com a sua esposa e a vontade inquebrantável de terminar a sua obra—que era justamente sobre a importância do sentido.

Portanto, não importa qual seja a nossa situação atual: de sucesso ou de fracasso. O que, de fato, nos dará força para continuar lutando são potências espirituais, tais como a fé em Deus, a esperança de reencontrar uma pessoa querida (nesta ou na outra vida) ou o compromisso de terminar uma obra que somente nós—e mais ninguém no mundo—pode realizar!

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