MPF denuncia 12 por esquema que teria enviado 673 brasileiros ilegalmente aos EUA e movimentado mais de R$ 40 milhões

O Ministério Público Federal (MPF) denunciou 12 pessoas apontadas como integrantes de uma organização criminosa especializada no envio clandestino de brasileiros aos Estados Unidos. Segundo as investigações, o grupo tinha base em Governador Valadares, no Leste de Minas Gerais, e teria viabilizado a entrada ilegal de pelo menos 673 brasileiros em território norte-americano entre 2017 e 2023. O esquema teria movimentado mais de R$ 40 milhões durante o período investigado.
A denúncia foi apresentada à Justiça Federal e é resultado do aprofundamento das investigações relacionadas à Operação Siblings, deflagrada pela Polícia Federal em fevereiro de 2025. Conforme o MPF, os envolvidos teriam estruturado uma rede para captar brasileiros interessados em chegar aos Estados Unidos sem autorização migratória, organizar as viagens e coordenar diferentes etapas até a fronteira entre o México e os Estados Unidos.
Dois irmãos de Governador Valadares são apontados pelo Ministério Público Federal como líderes da organização. De acordo com a acusação, eles seriam responsáveis pela captação dos interessados, recebimento dos pagamentos e organização da logística necessária para que os migrantes deixassem o Brasil e chegassem à região de fronteira. O pai dos dois também teria participado do esquema. Ao todo, cinco dos 12 denunciados pertencem à mesma família.
Segundo as investigações, cada migrante pagava valores que variavam entre R$ 50 mil e R$ 100 mil pelo serviço. Os pagamentos cobririam passagens, hospedagens, deslocamentos por diferentes países, documentos e a estrutura utilizada para chegar até a fronteira norte-americana. Com centenas de pessoas atendidas ao longo dos anos, os investigadores calcularam que a movimentação financeira relacionada à organização ultrapassou R$ 40 milhões.
A análise financeira identificou mais de 300 operações bancárias feitas diretamente por migrantes para contas relacionadas aos irmãos apontados como líderes do grupo. O MPF sustenta que parte dos recursos também circulava por contas bancárias abertas ou movimentadas em nome de terceiros, algumas delas vinculadas a documentos falsos. A estratégia teria sido utilizada para dificultar a identificação da origem e do destino do dinheiro.
Além do pagamento em espécie ou por transferência bancária, a investigação identificou outras formas utilizadas para garantir a cobrança das viagens. Migrantes teriam entregado veículos aos operadores, assinado notas promissórias e termos de confissão de dívida e concedido procurações que permitiam a negociação de imóveis. Esses instrumentos seriam utilizados como garantia até o pagamento dos valores acertados para a travessia.
O MPF aponta ainda que parte do dinheiro obtido teria sido utilizada na aquisição de bens e na formação de patrimônio dos investigados. Familiares dos supostos líderes são citados na denúncia como participantes de operações destinadas a movimentar e ocultar valores provenientes das atividades atribuídas à organização. Os fatos relacionados às transações financeiras fundamentaram as acusações de lavagem de dinheiro apresentadas pelo Ministério Público.
As investigações também identificaram uma estrutura responsável pelas diferentes etapas das viagens. Integrantes do grupo teriam atuado na compra de passagens aéreas, reserva de hotéis, preparação de documentos e orientação aos migrantes durante o percurso. Um brasileiro residente no México também teria auxiliado na logística necessária para a chegada dos viajantes à região da fronteira com os Estados Unidos.
Outro ponto apurado foi a utilização de documentos falsos ou adulterados. Segundo a investigação, alguns migrantes teriam recebido documentos para facilitar a passagem por países utilizados como rota até o México. Próximo à fronteira dos Estados Unidos, haveria ainda orientações sobre como proceder durante o contato com as autoridades migratórias norte-americanas.
Crianças e adolescentes também aparecem entre os migrantes identificados durante a investigação. Quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Siblings, em fevereiro de 2025, as apurações já haviam identificado mais de 200 menores de idade entre as pessoas relacionadas às viagens. Os investigadores analisaram situações em que adultos viajavam acompanhados de crianças durante a tentativa de entrada nos Estados Unidos e se essa prática fazia parte da estratégia organizada pelo grupo.
Depois de chegarem aos Estados Unidos, alguns migrantes também teriam recebido assistência jurídica providenciada por integrantes da organização. De acordo com a acusação, os responsáveis pelo esquema buscavam manter controle sobre informações relacionadas às viagens e à estrutura utilizada para realizar as travessias.
As investigações identificaram ainda a gravação de vídeos por brasileiros que haviam conseguido chegar aos Estados Unidos. Segundo o MPF, alguns migrantes eram orientados a produzir depoimentos agradecendo e elogiando o serviço oferecido pela organização. O conteúdo teria sido utilizado posteriormente como uma forma de divulgação para atrair novos clientes interessados em fazer o mesmo percurso.
A Operação Siblings foi deflagrada pela Polícia Federal em 26 de fevereiro de 2025. Na ocasião, agentes cumpriram 14 mandados de busca e apreensão, sendo 11 em Governador Valadares, dois no Espírito Santo e um no Distrito Federal. A Justiça também determinou medidas cautelares contra investigados e autorizou bloqueios e sequestros de bens relacionados às apurações.
Durante aquela fase da operação, a Polícia Federal informou ter identificado inicialmente 669 migrantes diretamente relacionados ao esquema. Com o aprofundamento das análises e o avanço das investigações, o número apresentado agora pelo Ministério Público Federal chegou a pelo menos 673 brasileiros que teriam sido enviados clandestinamente aos Estados Unidos entre 2017 e 2023.
Na época da operação, a PF também apontou que a quantidade real de pessoas atendidas pela organização poderia ser maior diante do volume de documentos, dispositivos eletrônicos e informações apreendidos durante as diligências. A estimativa inicial indicava que o universo das viagens investigadas poderia superar 1.500 pessoas, mas esse número não corresponde ao total atualmente individualizado na denúncia apresentada pelo MPF.
Os 12 denunciados respondem, de acordo com a participação atribuída individualmente a cada um, por crimes relacionados a organização criminosa transnacional, promoção de migração ilegal, uso de documento falso e lavagem de dinheiro. A responsabilização de cada acusado dependerá da análise da denúncia e do andamento do processo na Justiça Federal.
Os denunciados estão em liberdade. A apresentação da denúncia pelo Ministério Público Federal não significa condenação. Cabe agora à Justiça analisar os elementos apresentados e decidir sobre o recebimento das acusações. Caso a denúncia seja aceita, os investigados passarão à condição de réus e poderão apresentar suas defesas durante o processo.
A investigação busca ainda esclarecer toda a estrutura financeira e logística utilizada pelo grupo, a participação individual dos denunciados e o destino dos valores movimentados durante aproximadamente seis anos. Os bens e documentos reunidos durante a Operação Siblings também integram o conjunto de elementos utilizados pelas autoridades na apuração.
Governador Valadares aparece historicamente entre as cidades brasileiras com forte fluxo migratório para os Estados Unidos, circunstância que também integra o contexto analisado pelas autoridades em investigações relacionadas à migração clandestina. No caso denunciado pelo MPF, porém, a acusação se concentra nas condutas específicas atribuídas aos 12 investigados e na estrutura que teria sido montada para obter vantagem financeira com o envio irregular de brasileiros ao exterior.
Com a denúncia apresentada, o caso entra em uma nova etapa na Justiça Federal. O processo deverá analisar as provas reunidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, as movimentações financeiras, documentos, depoimentos e demais elementos obtidos durante a investigação para definir a eventual responsabilidade criminal de cada um dos acusados.








