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Entenda a dor muscular que aparece dois dias depois do treino

Aquela dor muscular que surge algumas horas depois da musculação e costuma ficar mais intensa entre 24 e 72 horas após o exercício tem nome: dor muscular de início tardio (DMIT). Ela é muito comum principalmente quando a pessoa aumenta a carga, muda os exercícios ou retorna aos treinos depois de um período parada. Diferentemente de uma lesão aguda, como uma ruptura importante, a DMIT geralmente representa uma resposta normal do organismo ao esforço físico ao qual o músculo ainda não estava completamente adaptado.

Durante o treinamento de musculação, o músculo é submetido a uma tensão mecânica elevada. Principalmente durante a fase excêntrica do movimento, quando o músculo produz força enquanto se alonga, ocorrem pequenas alterações estruturais nas fibras musculares e no tecido conjuntivo. Isso provoca uma resposta inflamatória local, com liberação de substâncias que participam do processo de reparação e também estimulam terminações nervosas responsáveis pela sensação de dor.

É justamente nesse processo de recuperação que acontece uma parte importante da hipertrofia muscular. O treinamento gera um estímulo mecânico que ativa processos celulares responsáveis pela síntese de proteínas musculares. Depois do exercício, o organismo começa a reparar e remodelar as estruturas que foram submetidas à sobrecarga. Com alimentação adequada, descanso e estímulo progressivo, a capacidade de síntese proteica aumenta e o músculo pode se adaptar, tornando-se mais preparado para suportar aquela determinada carga de treinamento.

É comum ouvir que a musculação simplesmente “rasga as fibras” para depois fazê-las crescer, mas essa explicação é uma simplificação. O crescimento muscular não depende de provocar uma lesão importante no músculo. O principal estímulo é a tensão mecânica, acompanhada de processos metabólicos e de remodelação dos tecidos. Pequenas alterações estruturais podem ocorrer durante o exercício, mas o objetivo do treinamento não deve ser provocar dor ou dano excessivo. Treinar até ficar extremamente dolorido não significa necessariamente ter realizado um treino melhor.

A dor tardia também não deve ser confundida com qualquer dor provocada pelo exercício. Uma dor intensa, localizada, acompanhada de inchaço importante, perda significativa de força, hematoma ou que aparece de forma súbita durante determinado movimento pode indicar lesão e merece avaliação profissional. Já a DMIT normalmente apresenta uma sensação de rigidez, sensibilidade e dor difusa nos músculos trabalhados, especialmente quando eles são movimentados ou pressionados.

Nesse contexto, a fisioterapia tem papel importante tanto na prevenção quanto na recuperação muscular. O fisioterapeuta pode avaliar a mobilidade, a força, a execução dos movimentos e possíveis desequilíbrios musculares, além de orientar estratégias para recuperação e retorno progressivo aos exercícios. Técnicas de mobilidade, exercícios terapêuticos, recuperação ativa e adequada progressão de carga podem ajudar o indivíduo a manter o treinamento com segurança e reduzir o risco de sobrecarga excessiva.

Também é importante ter cuidado com o uso indiscriminado de anti-inflamatórios depois da musculação. Como parte da resposta inflamatória participa da adaptação ao exercício, bloquear essa resposta de maneira rotineira pode, em determinadas situações e dependendo do medicamento, dose e frequência, interferir nos processos de recuperação e adaptação muscular. Isso não significa que anti-inflamatórios sejam sempre proibidos: quando existe indicação médica para tratar uma lesão ou outra condição, o benefício pode superar esse possível efeito sobre a adaptação. O problema é utilizá-los simplesmente para conseguir treinar sem sentir dor.

Portanto, a dor que aparece dois dias depois do treino pode ser uma consequência normal da adaptação do organismo a uma nova demanda. O caminho para ganhar massa muscular não é buscar o máximo de dor, mas combinar treinamento bem planejado, progressão de cargas, alimentação adequada, sono, hidratação e recuperação. Com orientação profissional, incluindo a fisioterapia quando necessária, o músculo consegue se adaptar progressivamente e aumentar sua capacidade de produzir força e suportar os desafios impostos pela musculação.

Por: Ft. Ronner Miranda

Especialista em Traumato Ortopedia Desportiva e Terapia Manual

Tel/Watts: (37) 99905-3770

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