Polícia Federal indicia vice-prefeito de Itaúna e outras nove pessoas em investigação sobre propina e direitos minerários

A Polícia Federal indiciou dez pessoas, entre elas o vice-prefeito de Itaúna, Hidelbrando Canabrava Rodrigues Neto, dois integrantes ou ex-integrantes da própria PF, empresários e um ex-deputado estadual, ao concluir uma investigação sobre um suposto esquema de pagamento de propina para acelerar licenças ambientais e autorizações relacionadas à mineração em Minas Gerais. O inquérito integra a Operação Intrafortis, ligada às investigações da Operação Rejeito, e envolve direitos minerários avaliados em mais de R$ 200 milhões.
O relatório final foi concluído pela Polícia Federal nesta semana e encaminhado para as providências seguintes. Segundo as informações obtidas a partir do documento, a investigação aponta que o grupo teria utilizado empresas formalmente registradas em nome de terceiros para participar de negócios envolvendo direitos de exploração mineral e atuar na obtenção de autorizações necessárias para aumentar o valor comercial desses ativos.
Entre os dez indiciados está Hidelbrando Canabrava Rodrigues Neto, que atualmente mantém o mandato de vice-prefeito de Itaúna após decisão provisória do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Em janeiro deste ano, a Câmara Municipal havia declarado a vacância do cargo, mas a 2ª Câmara Cível do TJMG suspendeu o ato e determinou sua recondução, entendendo, em decisão liminar, que não houve previamente processo administrativo com garantia do contraditório e da ampla defesa.
Além de Hidelbrando, a Polícia Federal indiciou o delegado federal Rodrigo de Melo Teixeira, que já exerceu o cargo de superintendente regional da PF em Minas Gerais, e a delegada aposentada Kelly Cristina de Castro Batista. Também aparecem no relatório empresários e pessoas relacionadas às empresas investigadas, além do ex-deputado estadual João Alberto Paixão Lages.
Segundo o relatório citado pela investigação, Rodrigo de Melo Teixeira é apontado pela Polícia Federal como suposto líder oculto do núcleo apurado na Operação Intrafortis. A PF sustenta que ele teria exercido, de fato, influência sobre negócios da empresa GMAIS Ambiental, embora seu nome não aparecesse formalmente no quadro societário da companhia. A defesa do delegado contesta as conclusões da investigação e afirma que o relatório não apresenta elementos suficientes para sustentar as acusações.
Os crimes atribuídos pela Polícia Federal não são necessariamente os mesmos para todos os investigados. Conforme a participação individual indicada no inquérito, aparecem suspeitas de organização criminosa, corrupção ativa, corrupção passiva, lavagem de dinheiro, tentativa de embaraço à investigação e violação de sigilo funcional. O indiciamento representa uma conclusão da autoridade policial sobre a existência de indícios e não equivale a uma condenação.
Segundo o relatório divulgado, os dez indiciados nesta etapa são:
| Indiciado | Vínculo citado na investigação |
|---|---|
| Rodrigo de Melo Teixeira | Delegado federal e ex-superintendente da PF em Minas; apontado pela investigação como suposto líder oculto do núcleo |
| Kelly Cristina de Castro Batista | Delegada aposentada da Polícia Federal |
| Ursula Paula Deroma | Empresária ligada aos negócios minerários investigados |
| Phillipe Westin Deroma Furtado | Empresário citado nas negociações e movimentações analisadas pela PF |
| Marcos Arthur Mendonça | Empresário incluído entre os indiciados no inquérito |
| Gilberto Henrique Horta de Carvalho | Empresário apontado pela PF como operador em contatos relacionados aos órgãos públicos |
| Hidelbrando Canabrava Rodrigues Neto | Vice-prefeito de Itaúna e ex-integrante da estrutura ambiental do Estado |
| Luiz Fernando Vilela Leite | Sócio formal da GMAIS Ambiental, segundo o relatório |
| Daniela dos Santos Wandeck | Sócia formal da GMAIS Ambiental e mulher de Rodrigo Teixeira |
| João Alberto Paixão Lages | Ex-deputado estadual citado nas negociações relacionadas aos ativos minerários |
A lista consta das informações extraídas do relatório final da Polícia Federal. A inclusão no indiciamento não significa reconhecimento judicial de culpa, e cada investigado poderá exercer o direito de defesa nas etapas seguintes do procedimento.
A investigação identificou duas frentes principais de atuação do suposto esquema. Uma delas teria como alvo procedimentos da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais, a Semad, especialmente licenças e autorizações ambientais. A outra envolveria a Agência Nacional de Mineração, a ANM, responsável por atos administrativos relacionados à pesquisa e aos direitos minerários.
Na Semad, o grupo teria buscado facilitar ou acelerar autorizações necessárias para os empreendimentos, incluindo documentos relacionados ao manejo de fauna. Já na ANM, os investigados estariam interessados principalmente na obtenção de alvarás de pesquisa e autorizações para cessão de direitos minerários. Segundo a PF, a obtenção desses documentos poderia aumentar o valor dos ativos antes de uma eventual negociação com investidores.
Os direitos minerários investigados estavam relacionados a áreas em municípios como Caeté, Santa Bárbara, Congonhas e Bela Vista de Minas. A Polícia Federal sustenta que, depois da regularização ou avanço dos processos administrativos, os títulos poderiam ser negociados por valores significativamente maiores no mercado de mineração.
Mensagens obtidas durante a investigação estão entre os elementos utilizados pelos policiais para sustentar a suspeita de pagamentos ilícitos. Em uma conversa de março de 2022, analisada pela PF, haveria referência a uma transferência de R$ 7,5 mil. Segundo o relatório, o pagamento estaria relacionado à obtenção de guias para manejo de fauna e teria sido enviado para uma conta ligada a Gilberto Henrique Horta de Carvalho.
Outro episódio citado no inquérito ocorreu em julho de 2023. A investigação identificou mensagem que mencionava pagamento de R$ 16 mil pela liberação de dois alvarás ligados à Agência Nacional de Mineração, sendo R$ 8 mil para cada autorização. Essas comunicações passaram a integrar o conjunto de elementos analisados pela Polícia Federal para tentar esclarecer a forma de atuação do grupo.
A PF ressalta, entretanto, que não conseguiu individualizar com o grau de segurança necessário todos os servidores públicos que eventualmente teriam recebido valores relacionados às autorizações. Por causa disso, a investigação prevê a abertura de novos procedimentos para aprofundar esse ponto e identificar possíveis destinatários dos pagamentos.
Um dos nomes mencionados nessa parte da investigação é o de Fernando Baliani da Silva, então ligado à estrutura da Semad e responsável por assinar autorizações de manejo de fauna do chamado Projeto Apolo. Ouvido pela Polícia Federal, ele negou ter recebido qualquer pagamento. A própria PF informou que ainda não possui elementos suficientes para atribuir a ele o recebimento das quantias mencionadas nas mensagens.
Outro núcleo importante do relatório envolve a GMAIS Ambiental. Conforme a investigação, a empresa foi aberta em março de 2021 formalmente em nome de Daniela dos Santos Wandeck e Luiz Fernando Vilela Leite. A PF, porém, sustenta que Rodrigo Teixeira teria exercido a gestão de fato da companhia, situação que é contestada por sua defesa.
Por meio dessa estrutura empresarial, segundo a Polícia Federal, Teixeira teria se tornado sócio oculto da Brava Mineração. A investigação afirma que a GMAIS recebeu participação equivalente a 13,33% em dois direitos minerários originalmente ligados a empresa de Ursula Deroma, sem pagamento correspondente pela participação.
A Polícia Federal sustenta que a contrapartida estaria relacionada à influência e à segurança institucional proporcionadas pela posição ocupada pelo delegado nas negociações. Essa conclusão integra a tese apresentada no relatório policial, mas ainda deverá ser submetida à análise do Ministério Público Federal e, caso haja denúncia, posteriormente à apreciação da Justiça.
Segundo os cálculos mencionados no inquérito, os direitos minerários investigados já teriam gerado mais de R$ 4 milhões para a Brava Mineração. Um contrato de venda analisado pelos investigadores previa uma negociação de aproximadamente R$ 203 milhões, dos quais cerca de R$ 27,1 milhões poderiam ser destinados à GMAIS Ambiental.
A investigação também cita negociações envolvendo uma mina localizada em Ouro Preto. De acordo com o relatório, integrantes do grupo discutiram o arrendamento de uma área onde está localizada a barragem Água Fria. A PF analisou áudios nos quais os envolvidos discutiriam responsabilidades relacionadas à estrutura da barragem no contexto de uma possível negociação.
Outra frente da Operação Intrafortis analisa se integrantes da própria Polícia Federal teriam utilizado informações ou ações institucionais em benefício de interesses particulares. Nesse ponto, a delegada aposentada Kelly Cristina de Castro Batista aparece entre os investigados pelo episódio envolvendo uma fiscalização realizada em 2022.
Segundo a conclusão policial, uma fiscalização na empresa Green Metals teria sido realizada a pedido de Rodrigo Teixeira em março daquele ano, sem a existência prévia de procedimento investigativo que justificasse a ação nos moldes apontados no relatório. A empresa estava instalada na mesma região em que interesses empresariais relacionados à GMAIS eram negociados.
Ainda de acordo com a PF, Kelly teria compartilhado com Rodrigo Teixeira informações extraídas de sistemas internos da corporação quando ele estava cedido à Prefeitura de Belo Horizonte e não teria autorização para acessar aqueles dados. Nesse núcleo, a delegada aposentada foi indiciada por violação de sigilo funcional e corrupção passiva, conforme o relatório divulgado.
A Operação Intrafortis foi deflagrada em 17 de setembro de 2025, dentro de um conjunto mais amplo de investigações sobre fraudes e corrupção no setor minerário mineiro. A ação teve participação da Polícia Federal e apoio de outros órgãos e incluiu buscas, prisões preventivas, sequestro de patrimônio e medidas relacionadas ao exercício de funções públicas.
Na mesma data, MPF, Polícia Federal, Controladoria-Geral da União e Receita Federal divulgaram a Operação Rejeito, que tinha como objetivo desarticular uma organização investigada por corrupção, crimes ambientais e lavagem de dinheiro. Na primeira fase, a Justiça determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 1,44 bilhão em ativos ligados aos investigados.
O caso ganhou dimensão estadual porque a investigação mais ampla alcançou empresários, agentes públicos e diversas empresas relacionadas ao setor de mineração. Segundo informações divulgadas posteriormente pela Polícia Federal, o grupo investigado na Operação Rejeito teria movimentado pelo menos R$ 1,5 bilhão por meio de mais de 40 empresas.
Em junho de 2026, a Polícia Federal concluiu outro relatório relacionado à Operação Rejeito e indiciou 34 pessoas por suspeita de participação em uma organização criminosa. Naquele procedimento, foram apontados crimes ambientais, corrupção ativa e passiva, tráfico de influência, lavagem de dinheiro, fraudes administrativas e falsidade documental relacionados à tentativa de viabilizar projetos de mineração em Minas Gerais.
O relatório da Intrafortis divulgado agora não deve ser confundido com o indiciamento das 34 pessoas. Trata-se de uma apuração específica, com dez indiciados, voltada principalmente às suspeitas envolvendo pagamentos para autorizações ambientais e minerárias, negócios envolvendo determinados direitos de exploração e possível utilização de estruturas públicas para interesses privados.
Hidelbrando Canabrava já havia aparecido entre os investigados desde a deflagração da Operação Rejeito, em setembro de 2025. Na época, a investigação o relacionava a empresas e negociações do setor minerário e apontava suspeitas sobre sua atuação junto a outros integrantes do grupo. Ele estava fora do Brasil quando foram cumpridos os mandados de prisão da operação.
A Prefeitura de Itaúna informou, em setembro de 2025, que os fatos investigados não tinham relação com o exercício das funções municipais de Hidelbrando. Na ocasião, ele foi exonerado do cargo de secretário municipal responsável pela área de meio ambiente, enquanto permanecia a situação envolvendo o mandato de vice-prefeito. A administração municipal também destacou naquele momento que não havia condenação definitiva contra ele.
Durante o período em que permaneceu no exterior, a Polícia Federal chegou a solicitar à Justiça a inclusão do nome de Hidelbrando na lista de procurados da Interpol. Ele retornou ao Brasil em fevereiro deste ano e passou a cumprir prisão domiciliar depois que o Tribunal Regional Federal da 6ª Região substituiu a prisão preventiva por medidas cautelares.
A situação política do vice-prefeito também passou a ser discutida no Judiciário. A Câmara de Itaúna declarou a vacância do mandato em janeiro, mas a decisão foi posteriormente suspensa pelo Tribunal de Justiça. A liminar determinou a recondução ao cargo e restabeleceu os direitos relacionados ao mandato enquanto o recurso não recebe julgamento definitivo.
No âmbito estadual, a Operação Rejeito também provocou questionamentos na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Parlamentares apresentaram pedidos de providências e informações sobre licenças ambientais concedidas a pessoas físicas e jurídicas investigadas, além de cobranças por auditorias e revisão de procedimentos de fiscalização ambiental.
A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável também passou a prestar esclarecimentos sobre procedimentos de fiscalização e licenciamento após as revelações decorrentes da operação. O tema chegou a ser discutido durante atividades de prestação de contas do Governo de Minas na Assembleia Legislativa em junho de 2026.
A investigação atual não significa que os dez indiciados tenham sido condenados ou sequer que já sejam réus pelos fatos descritos no relatório. O indiciamento ocorre ainda na fase de investigação policial e representa o entendimento da Polícia Federal de que foram reunidos indícios suficientes para atribuir determinadas condutas às pessoas mencionadas.
Com a conclusão do inquérito da Operação Intrafortis, o material segue para o Ministério Público Federal. Caberá aos procuradores analisar as provas reunidas e decidir se apresentam denúncia à Justiça Federal, solicitam novas diligências ou adotam outra providência prevista na legislação. O caso tramita sob supervisão do Tribunal Regional Federal da 6ª Região.
Caso o MPF apresente denúncia, a Justiça ainda terá de decidir se recebe ou rejeita as acusações. Somente com eventual recebimento da denúncia os investigados denunciados passarão formalmente à condição de réus pelos fatos aceitos para análise judicial. Até eventual decisão definitiva, todos mantêm o direito à ampla defesa, ao contraditório e à presunção de inocência.
A defesa de Rodrigo de Melo Teixeira já contestou publicamente o relatório da Polícia Federal. Em manifestação divulgada após a conclusão do inquérito, afirmou que elementos favoráveis ao investigado teriam sido desconsiderados e classificou as conclusões como carentes de suporte probatório. As alegações deverão ser avaliadas nas próximas etapas do caso juntamente com as provas reunidas pela investigação.
As demais defesas poderão se manifestar individualmente sobre as imputações atribuídas pela Polícia Federal. Como os crimes indicados variam conforme a participação que os investigadores atribuem a cada pessoa, a eventual responsabilização deverá ser analisada separadamente ao longo do procedimento.
A Operação Intrafortis permanece, portanto, em fase anterior a uma eventual ação penal. O relatório policial encerra uma etapa da investigação, mas as suspeitas sobre pagamentos a agentes públicos, utilização de empresas formalmente registradas em nome de terceiros, movimentação dos direitos minerários e possível lavagem de recursos ainda dependerão da avaliação do MPF e do Poder Judiciário.









