Brasil

Demência e Açúcares: a correlação que pode salvar vidas

Durante muito tempo, a demência foi considerada uma consequência inevitável do envelhecimento. Entretanto, estudos das últimas décadas mostram que diversos fatores metabólicos influenciam diretamente a saúde cerebral. Entre eles, o excesso de açúcar na alimentação, a resistência à insulina e o diabetes mellitus surgem como importantes fatores de risco para o comprometimento cognitivo. Atualmente, estima-se que mais de 57 milhões de pessoas vivam com algum tipo de demência no mundo, número que poderá ultrapassar 150 milhões até 2050. No Brasil, calcula-se que cerca de 2,5 milhões de pessoas convivam com a doença, tornando-a um dos maiores desafios para a saúde pública.

A demência também apresenta diferenças entre os sexos. As mulheres são as mais acometidas, representando cerca de dois terços dos casos de doença de Alzheimer no mundo. No Brasil, estudos indicam prevalência aproximada de 9,1% entre mulheres com 60 anos ou mais, contra 7,7% entre os homens da mesma faixa etária. A maior expectativa de vida feminina explica parte dessa diferença, mas fatores hormonais e biológicos também parecem contribuir para esse cenário.

O cérebro é um órgão altamente dependente da glicose para funcionar. Entretanto, quando há excesso crônico de açúcar no sangue, associado à resistência à insulina, ocorre uma série de alterações prejudiciais. A insulina, além de controlar a glicemia, participa da comunicação entre os neurônios, favorecendo a memória, a aprendizagem e a formação de novas conexões cerebrais. Quando esse mecanismo falha, o cérebro passa a apresentar menor eficiência no processamento das informações.

Pesquisas demonstram que pessoas com diabetes tipo 2 apresentam risco significativamente maior de desenvolver demência, incluindo a doença de Alzheimer. Alguns pesquisadores utilizam a expressão “diabetes tipo 3” para destacar a forte participação da resistência à insulina no cérebro, embora esse termo não seja um diagnóstico oficial. Nessa condição, os neurônios tornam-se menos responsivos à ação da insulina, comprometendo seu metabolismo energético e favorecendo sua degeneração progressiva.

Outro mecanismo importante envolve a inflamação crônica. Dietas ricas em açúcares refinados promovem aumento da produção de substâncias inflamatórias e de radicais livres, provocando estresse oxidativo. Esse ambiente favorece lesões nas células nervosas, acelera o envelhecimento cerebral e contribui para o acúmulo de proteínas anormais, como a beta-amiloide e a proteína tau, características da doença de Alzheimer.

O excesso de glicose também provoca danos aos vasos sanguíneos que irrigam o cérebro. Com o passar dos anos, ocorre comprometimento da circulação cerebral, reduzindo o fornecimento de oxigênio e nutrientes aos neurônios. Essa lesão vascular aumenta o risco de demência vascular e potencializa os efeitos das doenças neurodegenerativas, tornando o declínio cognitivo ainda mais acelerado.

A boa notícia é que muitos desses fatores podem ser modificados. Alimentação equilibrada, rica em frutas, verduras, legumes, fibras, proteínas de qualidade e gorduras saudáveis, associada à redução do consumo de bebidas açucaradas, doces e alimentos ultraprocessados, contribui para melhorar a sensibilidade à insulina. A prática regular de atividade física também desempenha papel fundamental, pois melhora o metabolismo da glicose, reduz a inflamação, estimula a produção de fatores de crescimento neuronal e ajuda a preservar a função cognitiva ao longo do envelhecimento.

A ciência reforça cada vez mais que cuidar do metabolismo é também cuidar do cérebro. A correlação entre excesso de açúcares, resistência à insulina e demência mostra que escolhas feitas diariamente podem influenciar a saúde cognitiva nas próximas décadas. Reduzir o consumo de açúcar, controlar a glicemia, prevenir o diabetes e manter um estilo de vida saudável não protege apenas o coração e o pâncreas, mas também pode preservar a memória, a autonomia e a qualidade de vida durante o envelhecimento, reduzindo o risco de uma doença que afeta milhões de brasileiros e dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo.

Por: FT. Ronner Miranda

Especialista em Fisioterapia Neurofuncional

Crefito: 243203-F

Tel/Watts: (37) 99905-3770

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