Casas Bahia entra com pedido de recuperação judicial após dívida chegar a R$ 17,3 bilhões

O Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial para tentar reorganizar aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas e preservar suas operações. A solicitação foi protocolada na Justiça de São Paulo e ocorre em meio ao agravamento da situação financeira da companhia, que divulgou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026. O processo envolve a própria varejista e outras empresas pertencentes ao grupo.
A recuperação judicial é um mecanismo previsto na legislação para empresas que enfrentam dificuldades financeiras e buscam negociar suas obrigações com credores sem interromper imediatamente as atividades. Portanto, o pedido não representa uma decretação de falência da Casas Bahia. A intenção apresentada pela companhia é utilizar o processo para reorganizar os passivos, preservar o caixa e criar condições para a continuidade das operações enquanto negocia com bancos, fornecedores e outros credores.
Dos aproximadamente R$ 17,3 bilhões submetidos ao processo, cerca de R$ 16,4 bilhões correspondem a créditos quirografários, categoria formada por obrigações que não possuem garantias específicas. A relação também inclui aproximadamente R$ 754 milhões em créditos trabalhistas e outros R$ 154 milhões relacionados a microempresas e empresas de pequeno porte. Bancos, fundos de investimentos, seguradoras, fornecedores e outros parceiros comerciais aparecem entre os grupos atingidos pela reestruturação.
O pedido ocorre após a divulgação do balanço do segundo trimestre, quando a Casas Bahia registrou prejuízo líquido de aproximadamente R$ 10,1 bilhões. Parte expressiva desse resultado está relacionada a ajustes contábeis e efeitos considerados não recorrentes pela companhia. Segundo os dados divulgados no balanço, aproximadamente R$ 9,1 bilhões do resultado negativo decorreram desses efeitos, enquanto o prejuízo ajustado ficou próximo de R$ 1 bilhão.
A situação levou o grupo a aprofundar o processo de redução de sua estrutura. A companhia anunciou o fechamento de 298 lojas consideradas de menor rentabilidade como parte de uma reorganização operacional. A estratégia inclui ainda redução de despesas, revisão de investimentos, diminuição de estoques e concentração das atividades em unidades e canais considerados mais rentáveis.
A Casas Bahia atribui parte das dificuldades ao ambiente de juros elevados, à restrição de crédito e ao aumento do custo de financiamento. Esses fatores têm impacto direto sobre empresas do varejo que dependem tanto de linhas de crédito para financiar suas operações quanto do parcelamento oferecido aos consumidores. A redução da capacidade de financiamento e a necessidade de preservar recursos disponíveis contribuíram para a decisão de recorrer à recuperação judicial.
A empresa já havia utilizado outro instrumento de renegociação de dívidas. Em 2024, o Grupo Casas Bahia passou por uma recuperação extrajudicial para reorganizar aproximadamente R$ 4,8 bilhões em compromissos financeiros. A recuperação extrajudicial ocorre a partir de negociações previamente realizadas com determinados grupos de credores, enquanto o processo atual coloca a reestruturação sob acompanhamento mais amplo do Poder Judiciário.
No novo processo, a companhia busca proteção contra determinadas cobranças enquanto prepara uma proposta para reorganizar o pagamento das dívidas. Entre as medidas solicitadas está a suspensão de execuções pelo período previsto na legislação de recuperação empresarial. Nesse intervalo, a empresa deverá avançar na elaboração e negociação de um plano que estabeleça condições, prazos e formas de pagamento aos credores abrangidos pelo procedimento.
Para os consumidores, o pedido de recuperação judicial não significa o fechamento imediato das lojas ou a suspensão automática das vendas. A companhia afirma que pretende manter em funcionamento as lojas físicas, os canais digitais e as demais atividades durante o processo. Compras já realizadas, parcelas de carnês e demais relações de consumo continuam sujeitas às obrigações previstas nos contratos e na legislação aplicável.
O processo também repercutiu no mercado financeiro. As ações da companhia sofreram forte queda após a divulgação do pedido e do prejuízo bilionário. A B3 informou a adoção de procedimentos relacionados aos índices dos quais as ações da Casas Bahia participavam em razão do pedido de recuperação judicial. A reação dos investidores ocorreu diante das incertezas sobre a capacidade do grupo de reorganizar sua estrutura financeira e recuperar a geração de caixa.
O diretor-presidente do Grupo Casas Bahia, Renato Franklin, afirmou que a recuperação judicial será utilizada como instrumento para reorganizar financeiramente a companhia. A direção sustenta que o objetivo é preservar uma operação considerada viável, renegociar obrigações estruturais e reduzir a pressão sobre o caixa durante o período de reestruturação.
Com o pedido apresentado à Justiça, as próximas etapas incluem a análise do processo, os procedimentos previstos na legislação e a negociação de um plano de recuperação com os credores. A recuperação judicial não garante, por si só, que a empresa conseguirá superar a crise. A continuidade dependerá da capacidade da Casas Bahia de reorganizar suas dívidas, manter as operações e cumprir as condições que forem estabelecidas durante o processo.










